Por Marco Severini — A tensão no tabuleiro do Oriente Médio ganhou nos últimos dias movimentos que sugerem uma aceleração preocupante rumo à opção militar. Companhias aéreas internacionais cancelaram rotas para a região, autoridades israelenses elevaram o estado de alerta por temor de erros de cálculo, e uma robusta movimentação das forças americanas em direção ao Golfo reabriu o debate sobre a possibilidade de um ataque dos Estados Unidos contra o Irã.
Na sexta-feira à noite, grandes operadores europeus e globais da aviação anunciaram cancelamentos: Lufthansa, Air France, KLM e Swiss suprimiram voos programados para o sábado com destinos no Médio Oriente, incluindo Israel, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. United Airlines e Air Canada reduziram temporariamente suas rotas apenas para Israel, segundo registros de aeroportos consultados por diversos meios de comunicação.
Paralelamente, relatos provenientes de Tel Aviv, citando a emissora Channel 12 — próxima ao governo de Benjamin Netanyahu — apontam que os altos comandos de defesa israelenses estão em nível elevado de prontidão por receio de uma miscalculation, isto é, uma falha de avaliação que poderia provocar uma escalada não intencional. Um dos cenários temidos é que o Irã, ao interpretar a movimentação militar como prelúdio de um ataque já decidido, opte por um golpe preventivo contra Israel.
O desenho das forças americanas deslocadas para a região é expressivo: deslocamento de um grupo de ataque com porta-aviões, seis navios de guerra, dois submarinos, mais de cem aeronaves de combate, dezenas de aviões de reabastecimento e de inteligência, além de sistemas de interceptação de mísseis balísticos — todo esse conjunto dotado da capacidade de empregar centenas de mísseis de cruzeiro. Em termos de estratégia, trata-se de uma sustentação logística e de dissuasão que redesenha fronteiras invisíveis no mapa de influência regional.
Na véspera, foi noticiado que o comandante do Comando Central dos Estados Unidos, o almirante Brad Cooper, deve deslocar-se até Israel para reuniões de alto nível, segundo a emissora pública Kan. Fontes também indicaram que figuras próximas ao círculo do ex-presidente Donald Trump, como Jared Kushner, e um enviado referido pela mídia, Steve Witkoff, estão programados para contatos em Jerusalém. Em Washington, o senador J.D. Vance afirmou que o reforço das forças americanas tem o objetivo de garantir que, se os iranianos cometesse(m) um erro grave, os EUA teriam os recursos necessários para responder — sem, contudo, detalhar quais seriam as medidas concretas do Executivo.
Da perspectiva de Teerã, qualquer ataque externo seria tratado como uma “guerra total”, segundo agências internacionais que repercutiram declarações oficiais iranianas. A liderança do Irã sustenta que o fortalecimento militar na região não deve resultar em confronto direto, mas enfatiza que suas forças estão prontas para o pior cenário.
Ressalto, como analista, que estamos diante de um conjunto de movimentos que compõem mais do que uma simples pressionamento: é um redesenho temporário da tectônica de poder regional. Ao mesmo tempo, o cancelamento de voos e a mobilidade naval e aérea funcionam como sinais públicos e privados num mesmo conjunto — parte diplomacia de persuasão, parte preparação logística.
Em termos de estratégia, a administração americana parece querer manter múltiplas cartas sobre a mesa: a presença militar amplia as opções dissuasivas, enquanto contatos diplomáticos em Jerusalém tentam coordenar reações e reduzir riscos imediatos de escalada indesejada. Mas a natureza dos eventos internos no Irã, nomeadamente a dura repressão a protestos que renovou o escrutínio internacional, adiciona um componente volátil ao tabuleiro. Num jogo que se decide por jogadas finas, a margem para erro é reduzida — e a responsabilidade de evitar o deslizamento para um conflito se tornou uma prioridade para atores que, até ontem, operavam por meios de influência menos visíveis.
Em suma: a convergência de voos cancelados, declaração de prontidão iraniana, e uma robusta mobilização naval e aérea dos Estados Unidos compõe hoje um quadro de alta tensão. As próximas horas e dias serão cruciais para determinar se esta é apenas uma demonstração de força ou o prelúdio de um movimento decisivo no tabuleiro estratégico do Oriente Médio.






















