Por Chiara Lombardi — Em uma temporada em que o entretenimento funciona como espelho do nosso tempo, chega à tela um biopic que reimagina uma das histórias éticas mais notáveis do esporte italiano. Giorgio Pasotti interpreta Eugenio Monti em Rosso Volante, telefilme coproduzido por Rai Fiction, Wonder Film (a produtora independente do próprio Pasotti) e Wonder Project, dirigido por Alessandro Angelini e inserido na programação da Olimpíada Cultural de Milano Cortina 2026. A exibição está marcada para 23 de fevereiro, em prime time na Rai Uno.
O filme começa em 1964, no calor competitivo de Innsbruck. Monti, aos 36 anos, é um atleta que já conquistou quase tudo no bob, mas ainda lhe falta o ouro olímpico. Durante uma descida que parecia destinada ao triunfo italiano, ele percebe que a equipe rival — liderada pelo britânico Tony Nash — perdeu um parafuso do trenó. Num gesto que se tornou cifra moral do esporte, Monti empresta o componente aos adversários para que possam completar a prova com segurança. O resultado: os ingleses levam o ouro, a Itália o bronze, e o Comitê Olímpico Internacional homenageia Monti com o troféu Pierre de Coubertin pelo exemplo de fair play.
Esse episódio do parafuso é a primeira imagem de um roteiro que percorre os quatro anos seguintes até Grenoble 1968, quando o chamado Rosso Volante — alcunha que Gianni Brera deu a Monti pelo arrojo e pela cor dos cabelos — conquista finalmente o ouro. O filme explora não só as façanhas esportivas, mas a tensão íntima entre ambição, sacrifício e ética pública — o roteiro oculto da sociedade revelado através de uma pista de gelo.
“Não tinha ouvido falar de Eugenio Monti antes”, conta Giorgio Pasotti. “Em 2014, durante um aniversário do CONI, Paolo Bonolis me convidou para ler trechos sobre a vida de alguns esportistas, e ali me apaixonei pela narrativa”. Para Pasotti, a história merecia teatro e cinema — e com a janela de Milano Cortina o círculo se fechou. “A vida de Monti, humana e esportiva, merece ser contada. É um exemplo que se perdeu.”
Na voz da analista que enxerga nas telas um reframe da realidade, Pasotti sugere um contraste entre aquele modelo de atleta e a contemporaneidade: “Hoje, os esportistas como ele são cada vez mais raros. Na Fórmula 1, por exemplo, parecem garotos programados como robôs, sem transparência emocional. O esporte foi entrelaçado a fatores econômicos, marketing e patrocinadores — e não mais ao simples ‘vença o melhor’”.
Com um passado em artes marciais e fã declarado das Olimpíadas, Pasotti afirma se comover com gestos de atletas que vivem entre privações e dedicação brutal por uma medalha. É nesse registro que coloca Monti: um exemplo de talento e caráter, o “Sinner dos anos 60”, capaz de traduzir em gesto esportivo um princípio ético que ressoa além das pistas.
O próprio Monti figura entre os atletas mais titulados do mundo: seis medalhas olímpicas, nove ouros mundiais e dez campeonatos italianos. Mas o filme prefere seguir o acontecimento moral — o empréstimo do parafuso — como ponto de inflexão, e não apenas a contagem de troféus. Ao transformar a história em cinema, Rosso Volante propõe que revisitemos o que valorizamos nas narrativas esportivas: a vitória individual ou o roteiro coletivo que define a memória cultural?
Em tempos em que a fama é medida por likes e contratos, este longa é um convite a olhar para trás sem nostalgia simplista: é um chamado para reavaliar a ética do espetáculo e o lugar do atleta como espelho da sociedade. Para quem busca no cinema um eco cultural que vá além do entretenimento, Rosso Volante promete ser mais que um filme sobre esportes — é uma reflexão sobre caráter, memória e o que realmente contamos quando celebramos um campeão.






















