Por Chiara Lombardi — Quando uma banda volta ao palco depois de duas décadas, não é apenas um concerto: é um espelho do nosso tempo. A reaparição do C.S.I. — projeto emblemático que reuniu na década de 90 vozes e inquietações políticas e espirituais — vem acompanhada de uma turnê e de um documentário que prometem resgatar não só canções, mas um roteiro oculto da sociedade que as produziu.
Os fundadores Giovanni Lindo Ferretti e Massimo Zamboni, junto a figuras centrais como Gianni Marroccolo, o guitarrista e operador de som Giorgio Canali e a vocalista Ginevra De Marco, decidiram atender a um pedido geracional: “uma geração nos pedia para recomeçar”, disse Ferretti. Reunidos ‘às seis’ numa mesa, a resposta foi um hesitante, mas decidido, “por que não?”.
O ponto de partida simbólico não poderia ser mais carregado de significado: Marzabotto, palco do massacre nazista de 1944 e local do último concerto da banda em 2001, receberá a abertura oficial da sequência de shows programados para o verão, a partir de 28 de agosto. Escolher Marzabotto equivale a colocar a música diante da história, pedindo silêncio e atenção — um lugar que “te ensina a ficar quieto, justo para recomeçar”, nas palavras de Zamboni.
Mas a reunião não é apenas memória: é também confrontação com as cicatrizes abertas pelas guerras que marcaram o fim do século XX. As canções do C.S.I. sempre foram permeadas pela crise das ideologias, por uma espiritualidade renovada e pelo horror das guerras iugoslavas. Referências como a biblioteca de Sarajevo em chamas, evocada em faixas como Cupe Vampe, ainda ecoam. “O mundo não melhorou muito; nada retira a cota de tristeza profunda”, comentou, amargurado, Ferretti — uma observação que funciona como legenda para o repertório que retorna ao palco.
Há memórias de shows em Mostar, em 1998, cidades-mártires onde a banda percebeu um deslocamento interno, uma sensação de “fora de lugar” que precipitou o fim da trajetória original. Foi justamente esse sentimento de despedida mal resolvida que motivou Gianni Marroccolo a insistir na volta: ele confessa ter se incomodado com a maneira como a história da banda havia sido interrompida.
Além de Marzabotto, o reencontro terá um prelúdio igualmente simbólico: em julho, o duo Ferretti-Zamboni fará uma apresentação reduzida na Mongólia, revisitando a rota de uma antiga jornada mítica. O projeto combinará shows e um documentário que, segundo a equipe, pretende traçar a geografia íntima do grupo — seus mitos públicos, as dissidências ideológicas e os encontros com as fraturas do continente europeu.
Para o observador cultural, essa volta dos C.S.I. não é só um evento de nostalgia: é uma oportunidade para reavaliar como a música política reaparece em tempos de incerteza. O repertório, carregado de referências históricas e imagens de guerra, age como um reframe da realidade, convidando o público a olhar para trás com olhos críticos e afetivos ao mesmo tempo. É como assistir, num cinema vazio, as projeções da nossa própria memória coletiva — e perceber que, apesar de tudo, as imagens continuam a nos interpelar.
Seis apresentações estão previstas para o verão, com a promessa de que o setlist abrirá com In viaggio, canção que simboliza o começo de um caminho que, ironicamente, recomeça no fim. O discurso do grupo permanece ambivalente: há conforto na reunificação, mas também uma consciência aguda das ruínas que o tempo deixou. Assim, a volta dos C.S.I. funciona como um pequeno espelho do mundo contemporâneo — onde o passado político e as urgências espirituais ainda moldam o presente.
Enquanto a turnê e o documentário se preparam para trazer de volta aquele som que marcou uma era, resta ao público e à crítica uma pergunta clássica: o que significa hoje revisitar canções nascidas em um contexto de catástrofe e transição? Talvez a resposta esteja no próprio palco, onde memória e performance se encontram e onde a banda — como todo bom roteiro — nos força a olhar além do óbvio.






















