Por Marco Severini — A chegada de uma tempestade ártica nos EUA redesenha, num movimento brusco no tabuleiro climático, as linhas de frente da segurança civil e da logística nacional. Quinze Estados — entre eles New York, Virginia, Louisiana, Alabama e Missouri — já declararam estado de emergência ante a projeção de até 40 centímetros de neve e temperaturas que podem alcançar -32°C. Aproximadamente 250 milhões de americanos estão em alerta.
O fenômeno percorre um eixo de cerca de dois mil quilômetros, das Rocky Mountains meridionais ao Nordeste e ao Meio-Oeste, afetando uma vasta franja de território. A amplitude do evento obriga a leitura política e técnica: não se trata apenas de um episódio de frio, mas de uma movimentação na tectônica de poder atmosférica, quando o ar polar escapa de sua contenção e provoca, em rotação, correntes de ar quente no alto norte e massas geladas deslocando-se para latitudes inferiores.
Na arena pública, o presidente Donald Trump reagiu com ironia, publicando um post sarcástico: ‘Uma onda recorde de frio deve atingir quarenta Estados. Raramente se viu algo assim. Os insurrecionalistas do ambiente poderiam, por favor, explicar o que aconteceu com o aquecimento global?’. A mensagem sintetiza uma divisão política sobre o tema do aquecimento global — não como negação do fenômeno, mas como ferramenta de narrativa entre bases eleitorais e tecnocracia climática.
Do ponto de vista meteorológico, porém, a dinâmica é distinta: o aquecimento geral do sistema altera a circulação atmosférica e pode permitir que o frio polar ‘fuja’ de sua gaiola habitual. O resultado é um gigantesco refrigerador em plena atividade, cujos efeitos serão sentidos por milhões de cidadãos nas próximas horas.
Segundo as projeções, cerca de 63 milhões de pessoas já enfrentam a chamada ‘bomba ártica’ — região que se estende do Novo México ao Texas e partes do Tennessee —, enquanto outras 55 milhões se preparam para condições extremas em Dakota (Norte e Sul), Minnesota, Iowa, Wisconsin e Illinois, além dos densamente povoados Estados do Nordeste.
Na Grande Maçã, foram emitidos avisos para contratação de trabalhadores para remover neve a US$ 19,14 por hora, valor que sobe para US$ 28,71 após 40 horas semanais. Jonathan Porter, meteorologista-chefe da AccuWeather, aconselhou: ‘Quem vive nessas áreas deve estocar alimentos e água, ter um plano para recarregar celulares e permanecer aquecido.’ Ele acrescentou: ‘Preparem-se para ficar presos em casa por vários dias.’
A ‘bomba ártica’ deve começar no Sul e no Nordeste e persistir até segunda-feira, com previsões de acúmulos ‘catastróficos’ de gelo nos vales inferiores do Mississippi e do Tennessee e no sul da Virginia. O perigo não é apenas a neve: as temperaturas extremas combinadas com ventos fortes podem devastar infraestruturas, deixando comunidades sem energia e isoladas. Milhares de voos têm cancelamento previsto; aeroportos e controladores mobilizam planos de contingência.
Em áreas do norte do Estado de New York já foram observadas pequenas avalanches com blocos de neve do tamanho de automóveis, sinal claro da intensidade local dos acúmulos. Especialistas descrevem a situação como potencialmente ‘sem precedentes’ para alguns corredores de transporte.
Em termos estratégicos, este episódio evidencia a fragilidade dos alicerces da diplomacia doméstica quando eventos naturais de grande escala atravessam linhas partidárias. Assim como num tabuleiro de xadrez, cada movimento — da ordem executiva ao despacho de equipamentos — poderá definir a capacidade de resiliência das comunidades afetadas.
À medida que a emergência se desenrola, a prioridade imediata é logística: manutenção de redes elétricas, prioridades para hospitais e centros de abrigo, e capacidade de retomada dos nós de transporte. A leitura geopolítica é clara: o exercício de poder num Estado moderno passa também pela capacidade de proteger populações diante dos novos contornos do clima.





















