Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha as fronteiras invisíveis entre confiança pessoal e finanças privadas, a atriz suíça Ursula Andress, hoje com 89 anos e lembrada como a primeira Bond girl do cinema, denunciou ter sido vítima de uma grave fraude financeira estimada em cerca de 18 milhões de francos suíços (quase 20 milhões de euros).
Segundo a própria atriz e reportagens do diário suíço Blick, Andress apresentou querela penal na Suíça atribuindo a autoria das operações ao seu ex-gestor patrimonial, o ginevrino Eric Freymond, que faleceu alguns meses atrás. O relato oficial aponta para investimentos realizados sem conhecimento da atriz, aplicados em títulos de escasso ou nulo valor, além de operações descritas como opacas.
Parte do patrimônio, conforme consta na denúncia, teria sido usada na aquisição de obras de arte registradas em nome da esposa de Freymond. O valor real dessas obras e sua localização atual permanecem incertos: uma arquitetura financeira cujo alicerce parece ter sido deslocado.
“Estou ainda em choque”, declarou Ursula Andress ao Blick. “Fui deliberadamente escolhida como vítima. Durante oito anos fui adulada e manipulada. Mentiram sem escrúpulos, explorando minha confiança de forma pérfida e criminosa.” As palavras traduzem um estado psicológico agravado: a atriz relatou insônia, crises de ansiedade e uma profunda sensação de impotência, afirmando que esperava viver serenamente os últimos anos de sua vida.
Não se trata de um episódio isolado em torno de Eric Freymond. O herdeiro da maison Hermès, Nicolas Puech, já o havia denunciado por suposta apropriação indevida de quantias vultosas. Em julho de 2025, Freymond teria admitido alguns dos fatos imputados; duas semanas depois, segundo a imprensa suíça, cometeu suicídio.
Mesmo com a morte do principal indiciado, o management de Andress informou que acionou autoridades judiciais para apurar responsabilidades penais e civis de eventuais outros envolvidos. O jornal Tages-Anzeiger noticiou buscas no cantão de Vaud em escritórios de um advogado e de um notário relacionados à colaboração com Freymond. O advogado negou as acusações; o notário invocou o segredo profissional.
Do ponto de vista geopolítico e jurídico, o caso expõe fragilidades nas estruturas de governança patrimonial: quando o conselheiro financeiro se transforma em jogador no tabuleiro, as peças da vítima podem ficar irremediavelmente deslocadas. Resta às autoridades reconstituir a cartografia dos fluxos, localizar bens e determinar se houve cumplicidade externa.
Andress concluiu com um apelo duro: “Fui ignominiosamente enganada. Sinto-me muito mal e espero que os responsáveis sejam punidos com a máxima severidade”. Para além da indignação moral, há um jogo jurídico e financeiro em curso — um movimento decisivo no tabuleiro que poderá ter repercussões na forma como patrimônios privados são administrados e fiscalizados na Suíça.






















