Por Marco Severini — A mais recente Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos redesenha, com medida e pragmatismo, as prioridades do Pentágono: a defesa do território nacional sobe ao primeiro posto do tabuleiro, enquanto o apoio americano aos aliados em outras regiões passa a ser mais seletivo e de menor amplitude.
O documento, que formaliza as linhas mestras para a atuação do Departamento de Defesa, marca uma mudança notável em relação às estratégias anteriores. Se até pouco tempo a peça central da política americana era o confronto sustentado com a China e a caracterização da Rússia como uma ameaça grave, a nova redação adota um tom mais comedido: propõe relações respeitosas com Pequim e descreve a ameaça russa como “persistente, mas gerenciável”, concentrada sobretudo sobre os membros orientais da OTAN.
O texto afirma explicitamente que “enquanto as forças norte-americanas se concentram na defesa do território nacional e do Indo-Pacífico, nossos aliados e parceiros em outras regiões assumirão a responsabilidade primária pela própria defesa, com um apoio crítico, porém mais limitado, das forças americanas”. Significa, em termos estratégicos, um redesenho de alicerces: menos projecção global contínua por parte de Washington e mais ênfase em pontos nodais e na capacidade dos parceiros.
Notavelmente, o novo documento deixa de mencionar explicitamente Taiwan, questão sensível que Pequim reclama como parte de seu território. Essa omissão é um movimento calculado — um lance no tabuleiro diplomático que busca evitar uma escalada desnecessária com a China, mantendo, ao mesmo tempo, mecanismos de contenção e dissuasão no Indo-Pacífico.
Ao mesmo tempo, a estratégia retoma uma crítica política interna: a versão produzida pela administração anterior — vinculada ao governo Trump — censura a administração precedente por supostamente ter negligenciado a segurança das fronteiras, fator que, segundo o texto, teria provocado uma “onda de migrantes clandestinos” e facilitado o tráfico de entorpecentes. O documento é explícito: “A segurança das fronteiras é segurança nacional” e o Pentágono dará prioridade a esforços para selar fronteiras, repelir formas de invasão e expulsar imigrantes em situação irregular.
Uma dimensão geográfica recém-revalorizada é a do Hemisfério Ocidental. A defesa do território nacional é apresentada como superior até mesmo ao foco no Indo-Pacífico, com a região das Américas descrita como excessivamente negligenciada por políticas anteriores. O texto menciona a necessidade de garantir o acesso militar e comercial a pontos estratégicos — em particular o Canal do Panamá, o Golfo das Américas e a Groenlândia — e sinaliza que os Estados Unidos buscarão engajamento de boa-fé com vizinhos do Canadá à América Central e do Sul, exigindo, contudo, que façam a sua parte na defesa de interesses comuns.
Quando o documento antecipa que, se necessário, Washington estará pronto a “empreender ações direcionadas e decisivas” para avançar interesses americanos, estamos diante de uma mensagem dupla: por um lado, uma postura defensiva e de contenção; por outro, a manutenção da capacidade de intervenção cirúrgica. Em termos de cartografia estratégica, é um reposicionamento das forças no mapa: reforçam-se os pontos vitais, redesenha-se a logística, e pede-se aos aliados que fortaleçam suas próprias defesas.
Em suma, a nova Estratégia de Defesa Nacional é um movimento de retração seletiva e de reorientação geográfica — um movimento no tabuleiro que privilegia a proteção do território como primeiro dever do Estado, sem abandonar a competitividade global, mas pedindo aos parceiros que assumam parcelas mais substanciais do ônus coletivo.






















