Por Marco Severini — Em um jogo de peças diplomáticas e memórias históricas, surge um paradoxo que exige análise fina: Reza Pahlavi, herdeiro do último xá, reaparece no tabuleiro político do Irã como possível ponto de convergência da resistência ao regime dos aiatolás. Em entrevista, o professor Alberto Pagani, da Universidade de Bolonha — analista de geopolítica e especialista em inteligência — reconstrói as raízes do desastre de 1979, o peso do petróleo na geopolítica iraniana e as leituras equivocadas ocidentais que moldaram o presente. O resultado é uma fotografia complexa: nem nostalgia monárquica, nem mero culto à figura, mas a procura por uma brecha que rompa o aparato teocrático.
Para muitos observadores ocidentais, monarquia evoca passado. No Irã, contudo, a leitura pode ser distinta: Reza Pahlavi é percebido por parcelas significativas da população como um símbolo de ruptura com a teocracia. Quem vive sob a vigilância da polícia moral e sob o pulso coercitivo dos pasdaran não discute primariamente teoria constitucional; procura-se um caminho de saída, um ponto de união que crie coesão entre correntes diversas da oposição iraniana. Nesse contexto, a figura do príncipe funciona como um ombro político, um “alicerce” simbólico capaz de sustentar sensibilidades que, de outro modo, permaneceriam dispersas.
Pagani lembra que muitas análises europeias tendem a subestimar a profundidade da memória imperial persa. O Irã traz consigo mais de dois milênios de identidade civilizacional; isso não é mero folclore cultural, é um eixo de reconhecimento coletivo. A história imperial molda expectativas de grandeza e soberania que se chocam com a narrativa de periferia imposta pelo ambiente geopolítico contemporâneo. Nesse sentido, a adesão à imagem de Pahlavi não equivale a um desejo acrítico de restauração do passado: é, antes, uma busca por um símbolo capaz de traduzir a demanda por liberdade em uma alternativa politicamente inteligível.
Do ponto de vista estratégico, há vantagens e riscos. A vantagem óbvia é a capacidade de agregar: uma liderança reconhecível pode funcionar como catalisador, transformando uma oposição fragmentada em uma frente coerente. É um movimento decisivo no tabuleiro da política interna, um intento de redesenhar fronteiras invisíveis entre grupos etários, sociais e ideológicos.
Os riscos são igualmente reais. Um príncipe exilado enfrenta problemas de legitimidade doméstica, dificuldades práticas de organização sob repressão e a resistência de correntes republicanas, nacionalistas ou religiosas que desconfiam de qualquer figura associada ao passado. Além disso, a tentativa de instrumentalizar a nostalgia pode colidir com a tectônica de poder enraizada nos aparatos de segurança e numa elite revolucionária que não aceitará facilmente um deslocamento brusco.
Há ainda uma componente externa: os equívocos ocidentais de leitura do Irã, acentuados pelo papel do petróleo e por interesses geopolíticos concorrentes, geraram descrédito. A Europa enfrenta uma crescente desconfiança interna no Irã, resultado da combinação entre repressão doméstica e crises internacionais. Um resultado prático é que qualquer apoio externo precisará calibrar-se com extremo cuidado, evitando alimentar narrativas de intervenção que o regime exploraria para consolidar sua base.
Em termos práticos, o que representa Reza Pahlavi hoje é um nó estratégico: potencial coesão contra os aiatolás, mas também uma peça vulnerável que pode ser contestada tanto internamente quanto por atores regionais. O desafio para a oposição é transformar a imagem do príncipe, quando útil, em projeto político concreto — inclusive definindo mecanismos de transição, representação e segurança. Para os observadores e formuladores de política externa, a lição é clara: agir como arquitetos e cartógrafos do processo, não como jogadores improvisados; desenhar passos graduais que preservem a estabilidade e não derrubem, de forma precipitada, os frágeis alicerces da diplomacia.
Em suma, o caso Pahlavi é um exercício de estratégia histórica: uma figura que pode, momentaneamente, funcionar como ponto de convergência, mas cuja eficácia dependerá da capacidade da oposição de transformar símbolo em plano político e da prudência das potências externas em não virar o tabuleiro de modo a provocar um colapso violento. A cena iraniana permanece um campo minado de identidades e interesses — onde cada movimento exige antecipação, cautela e um sentido claro do objetivo final: liberdade com estabilidade.
Entrevista conduzida por Alberto Pagani e compilada para análise geopolítica.






















