Por Chiara Lombardi — Em tempos em que os period dramas se tornaram o espelho preferido para ler as fissuras do presente, House of Guinness surge como mais um exemplo notável do drama britânico que investiga família, poder e identidade nacional. Disponível na Netflix, a série centra-se na família por trás da cerveja Guinness e nas tensões entre britânicos e irlandeses na segunda metade do século XIX.
A narrativa começa com o funeral do patriarca do império cervejeiro, Sir Benjamin Guinness: um rito de passagem que expõe, logo de início, as cisões internas que irão determinar o destino dos bens e da influência familiar. O cortejo fúnebre torna-se palco não só das disputas pessoais entre os herdeiros, mas também do confronto público entre um protestantismo associado ao poder econômico e o ativismo dos nacionalistas republicanos irlandeses, que chegam a atacar o cortejo.
É nesse entrelaçar de drama familiar e conflito político que Steven Knight (criador de Peaky Blinders) desenha um painel denso do eixo Dublin–Londres, em uma época em que um antigo ordenamento social começa a ruir e o novo ainda não encontrou forma. Essa capacidade de captar o exato instante de transição histórica é, talvez, a assinatura dos melhores dramas de época: o vazio entre eras é preenchido com objetos carregados de significado — e, aqui, a própria Guinness funciona como símbolo de pertencimento e disputa.
O conflito interno é centrado nos quatro filhos do patriarca: Arthur, destinado a uma carreira política em Londres; Edward, que aprendeu a gerir a cervejaria com prudência; Benjamin Jr., entregue aos vícios e ao gasto desenfreado; e Anne, cuja presença altera a dinâmica familiar de maneiras sutis e profundas. Entre diálogos contidos e tons por vezes sombrios, a série explora hipocrisias e ambições que alimentam um drama quase shakespeariano, revestido de cenografia luxuosa e trajes que evocam um passado palpável.
Embora House of Guinness não reivindique fidelidade total aos eventos históricos — preferindo uma reconstrução ficcional e em alguns momentos confortavelmente imaginativa — essa escolha narrativa tem um propósito claro: usar a história como cenário para mapear desejos, falhas e representações sociais. Nesse sentido, a série age como um roteiro oculto da sociedade, onde símbolos cotidianos (uma cerveja, um funeral, um parlamento) tornam-se palavras-chave de uma semiótica maior.
Do ponto de vista estético e narrativo, o trabalho de Knight confirma uma tendência contemporânea dos dramas britânicos: a elegância formal e o rigor de produção servem para iluminar conflitos humanos básicos — herança, poder, lealdade — sem descuidar da dimensão política. É um retrato que convida à reflexão: por que transformamos objetos e marcas em emblemas de pertencimento? Como as narrativas familiares reconstroem o passado para justificar um futuro?
Ao final, House of Guinness se apresenta não apenas como entretenimento bem-feito, mas como uma espécie de reframe cultural — uma janela onde se pode ler, com curiosidade sofisticada, o eco de lutas maiores que atravessam séculos. Para quem gosta de ver o cinema e a televisão como espelhos do nosso tempo, essa produção oferece motivos racionais e afetivos para continuar olhando.
Publicado em 23 de janeiro de 2026






















