Juan Diego Flórez celebra 30 anos na La Scala
O tenor Juan Diego Flórez, que vem de Viena, desembarca em Milão para comemorar uma marca que é, ao mesmo tempo, pessoal e simbólica: trinta anos desde o seu debut no Teatro alla Scala. O programa do concerto reconstrói uma tradição de voz e repertório — ariettas de Rossini, Bellini e Donizetti, a herança de língua hispânica, a ópera francesa (Massenet e Gounod) e uma homenagem a Verdi com trechos de I Lombardi. Ao piano estará Vincenzo Scalera, e, como já virou costume, os bis pirotécnicos e uma passagem com violão prometem incendiar a plateia.
Ao telefone, nota-se uma nuance inesperada na voz do cantor: não é só o timbre que evoca os famosos nove dós de La Fille du régiment, mas uma emoção palpável em antecipação ao concerto. “Sou emocionado — diz ele —. Lembro da primeira vez que entrei na Scala: entrei como turista, já cantava, e ao ver o palco pensei: em dez anos estarei ali, talvez em cinco. Aconteceu, e ainda mais rápido. Alguns meses depois fui chamado por Riccardo Muti. Era 1996.”
Flórez, nascido em 1973 e idolatrado pelo público lírico mundial, era apenas um jovem de 23 anos quando estreou na sala de abertura de temporada com Armide, de Gluck — um momento que o projetou como sinônimo de belcanto. Pesaro e seu festival rossiniano o adotaram como referência; ele combina virtuosismo vocal com uma vis comica natural no palco, uma mistura que o tornou figura central para quem busca tanto a perfeição técnica quanto o brilho de interpretação.
Depois de três décadas, a paixão permanece intacta. “A verdadeira dificuldade? Viver o ano inteiro em turnê pelo mundo”, confessa. “O canto, para mim, é movido por curiosidade: redescobrir repertório, divertir-me em cena, tocar canções do meu país no violão. A música é um elixir para a alma.”
Além da imagem pública polida — eleito entre os artistas embaixadores de projetos culturais patrocinados por marcas como a Rolex, e colocado por Pavarotti como possível sucessor —, Flórez cultivou um compromisso social duradouro. Inspirado pelo projeto venezuelano El Sistema, fundou em 2011 a Sinfonía por el Perú, iniciativa destinada a oferecer a crianças e adolescentes a possibilidade de escapar de contextos difíceis por meio do ensino musical. São gestos que transformam a presença do artista em uma ação política-cultural: não apenas voz, mas instrumento de mudança.
“Quando estou em Milão sinto duas constantes: a adrenalina dos aplausos e o calor de quem trabalha nos bastidores — uma família que dá coragem”, afirma Flórez.
Há também um gesto quase iconoclasta em sua carreira: fazer bis com a mesma aria dos nove dós na La Scala, quebrando códigos e conquistando o público por isso. Esse episódio resume a singularidade de sua trajetória: virtuose que não teme rir, que não abdica da conexão humana e que transforma cada nota em narrativa.
Enquanto a noite do concerto se aproxima, é possível ler essa comemoração como mais do que um marco cronológico: é um espelho do nosso tempo — um artista que atravessou oceanos, idiomas e expectativas, transformando seu talento em um roteiro oculto que articula fama, responsabilidade social e a eterna busca por reinvenção. Em tempos de efemeridade, a permanência de Juan Diego Flórez na memória da ópera nos lembra que certas vozes se tornam referência porque carregam, além do timbre, uma história que ressoa.
23 de janeiro de 2026

















