Por Marco Severini — 23 de janeiro de 2026
O visual do presidente francês Emmanuel Macron no palco do World Economic Forum, em Davos, despertou mais do que curiosidade: provocou uma onda de reações nas redes sociais e transformou em fenômeno cultural um par de óculos de sol. A imagem do presidente com lentes escuras gerou centenas de memes que o comparam tanto a figuras da cultura pop quanto a ícones do cinema, num movimento que diz muito sobre a teatralidade do poder na era digital.
Do ponto de vista dos mercados de luxo, a consequência foi imediata. O modelo apontado como o usado pelo mandatário é o Pacific S 01, comercializado a 659€ pela tradicional Maison Henry Jullien. A casa, fundada em Paris e desde 2023 parte do grupo italiano iVision Tech, viu a procura pelo modelo disparar. Em declaração pública, o CEO Fulchir adiantou: “vamos produzir 1.000 unidades” para atender à demanda repentina.
Oficialmente, a justificativa para o acessório são cuidados médicos: fontes do gabinete indicaram que o presidente passou por um procedimento no olho, o que explicaria o uso das lentes. No entanto, o que se espalhou com mais velocidade foram as narrativas informais. Algumas postagens sugeriram, sem confirmação, a hipótese de um desentendimento pessoal envolvendo a Première Dame, Brigitte Macron. Essas versões não foram corroboradas por autoridades e permanecem no campo da especulação.
No universo dos memes, as referências foram gráficas e imediatas. Um dos comparativos mais vistos coloca Macron ao lado de Marion Cobretti, personagem de Sylvester Stallone em Cobra (1986), em razão dos óculos imponentes e do gesto austero. Outro conjunto de imagens o aproxima de Pete ‘Maverick’ Mitchell, papel de Tom Cruise em Top Gun (1986) e no recente sequel, pela semelhança com o clássico modelo aviador.
Mais do que gargalhadas, esse episódio oferece uma leitura relevante para quem acompanha geopolítica: a imagem pública de um chefe de Estado é um tabuleiro onde cada peça — gesto, acessório, expressão — pode deslocar percepções e recalibrar influência. A escolha de usar óculos de sol em um palco global é um movimento que mistura cálculo e acaso, um lance no jogo simbólico que acompanha as grandes decisões internacionais.
Para observadores atentos, há aqui vários planos simultâneos: o cultural — com a rápida viralização de memes; o comercial — com o aumento súbito da procura pelo Pacific S 01; e o diplomático — onde a imagem do líder europeu é ao mesmo tempo ativa e vulnerável. Em uma perspectiva de longo prazo, episódios assim constroem camadas sobre a autoridade, alimentando narrativas que podem ser exploradas por aliados e adversários.
Num mundo onde a tectônica de poder se desenha também na superfície das telas, um par de óculos tornou-se peça de análise: instigante para o comentarista cultural, útil ao comerciante e útil, sobretudo, ao estrategista que percebe como pequenas aberturas simbólicas podem redesenhar fronteiras invisíveis de influência.






















