O lançamento do novo organismo internacional baptizado Board of Peace, formalizado por Donald Trump durante o Fórum Econômico Mundial em Davos (22 de janeiro de 2026), merece mais do que o olhar imediato da manchete: exige uma leitura estratégica dos símbolos inscritos em seu emblema. A cerimônia — com vinte países assinando o estatuto dois a dois, conduzida pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, e com a ausência notável de Netanyahu — foi, em si, um lance calculado num xadrez diplomático maior. Mas o verdadeiro sentido do movimento está nos detalhes heráldicos do logo.
À primeira vista, o brasão exibe um escudo suíço estilizado, de tonalidade dourada, encimado por dois ramos que lembram folhas de louro e emergindo sobre um fundo azul pontuado por estrelas. No interior do escudo, a representação cartográfica privilegia a América do Norte, a América Central e parte da América do Sul, formalizando uma centralidade geográfica que não é inocente. As estrelas no fundo evocam, de maneira quase subliminar, as pequenas estrelas brancas da bandeira norte-americana — uma referência implícita à influência dos Estados Unidos no novo organismo.
Do ponto de vista simbólico, cada elemento compõe uma semântica do poder: o dourado associa-se à riqueza e à prerrogativa privada; o escudo, à proteção e à legitimidade; os ramos e sua disposição remetem a tradições de nobreza e triunfo. A opção pelo escudo suíço — com as suas tradicionais incavações no topo — é, ao mesmo tempo, um aceno ao local de nascimento do Board of Peace (Davos, nos Alpes suíços) e um esforço de legitimação pela neutralidade aparente. Em termos práticos, porém, essa neutralidade é cuidadosamente proveniente: trata-se de uma arquitetura simbólica de autoridade privada, construída fora dos alicerces institucionais da ONU.
É nessa tensão — entre aparência neutra e conteúdo geopolítico seletivo — que surge a hipótese hoje amplamente comentada nas redes diplomáticas: o logo não só distorce a iconografia das organizações multilaterais clássicas, como também apresenta referências implícitas à cartografia conhecida como Technate of America. A sobreposição de um mapa centrado nas Américas sobre um escudo europeu simbolicamente funde duas esferas de influência, sinalizando um redesenho de fronteiras invisíveis no tabuleiro da ordem mundial.
Em termos de discurso público, a cerimônia foi apresentada como um esforço para “coordenação política no pós-Gaza”. Mas a leitura heráldica e semântica revela uma intenção mais ampla: criar um instrumento privado de governação e mediação que, sob aparência técnica, compete com os canais estabelecidos da ONU e das organizações multilaterais tradicionais. Esta não é apenas uma questão estética; é um movimento estrutural que pretende oferecer alternativas à arquitetura multilateral vigente, com claras vantagens para atores seletos.
Do ponto de vista de estratégia internacional, é preciso acompanhar como este novo organismo se inserirá na tectônica de poder global. A construção de símbolos precede, historicamente, a consolidação de espaços de influência. O emblema do Board of Peace funciona, portanto, como um mapa de intenções: indica quem está convidado para a mesa, que agenda é privilegiada e quais fronteiras de legitimidade estão sendo redesenhadas.
Em suma, a semiótica do logo é um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico contemporâneo. Não se trata apenas de um brasão dourado exibido em Davos, mas de um instrumento de comunicação projetado para instituir narrativas e estruturas alternativas de poder. Observar e decodificar esses sinais é, para o analista de Estado e para o decisor, equivalente a ler várias jogadas à frente numa partida de xadrez: antecipar intenções, prever alianças e, acima de tudo, preservar os alicerces frágeis da diplomacia multilateral.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia. Especialista em Relações Internacionais e dinâmica de poder.






















