Em um tom sereno, porém firme, a embaixadora da Palestina em Itália, Mona Abuamara, traçou em Roma um apelo direto às autoridades italianas: é chegada a hora de transformar a amizade histórica em um compromisso político concreto. “A Itália é um very important friend e tem feito um esforço humanitário significativo pelo nosso povo. Mas nós queremos o fim da ocupação, não conviver com a ocupação”, declarou a diplomata, numa intervenção que desenha um movimento decisivo no tabuleiro da diplomacia europeia.
O pedido-chave da embaixadora é cristalino: que a Itália mantenha seus compromissos e proceda ao reconhecimento do Estado da Palestina. “Su questo non deve essere Israele a decidere”, afirmou Abuamara, sublinhando que o direito à autodeterminação palestina não pode ser sujeito a veto externo.
Ao lado da embaixadora estava Fadwa Barghouti, advogada e esposa de Marwan Barghouti, figura central do nacionalismo palestino e atualmente detido nas prisões israelianas por múltiplas sentenças de prisão perpétua. Fadwa, que desde 2002 trava a batalha pela libertação do marido, reiterou que Marwan é um símbolo de unidade e esperança do povo palestino. “Marwan era parlamentar palestiniano e fu rapito da Israel, non arrestato”, recordou, apontando irregularidades processuais que, segundo ela, violaram direitos fundamentais e o direito internacional.
A visita da delegação à imprensa em Roma trouxe dados e cenários que formam os alicerces frágeis da atual diplomacia: desde outubro de 2023, a ofensiva israelense se desenrola em três frentes — Gaza, Cisjordânia e prisões. As autoridades palestinas contabilizam pelo menos 9.350 prisioneiros palestinos nas cadeias israelenses, com restrições severas a visitas e direitos básicos desde 7 de outubro de 2023. Segundo Fadwa, além das torturas psicológicas tradicionais, houve relatos amplos de abusos físicos e pelo menos 110 mortes de detentos palestinos.
Sobre os mecanismos internacionais, a embaixadora Abuamara preferiu recuar da polêmica semântica: “Non sono importanti i meccanismi e i partecipanti — ciò che è importante è fermare il genocídio dei palestinesi sia a Gaza che altrove”. Em sua leitura, a última escalada intensificou uma tectônica de poder que ameaça apagar memórias e presença histórica palestina, com a atual ofensiva prejudicando inclusive o trabalho da UNRWA. “L’attacco all’UNRWA è una delle pagine più nere della storia” — declarou, pedindo que o princípio da igualdade de vidas seja aplicado sem exceções.
Nos apelos práticos, Abuamara solicitou coerência à política italiana: que Roma suspenda compras de produtos provenientes de colônias ilegais e reverta a venda de armas que alimentam a violência. É um convite a redesenhar, com responsabilidade, as linhas invisíveis que sustentam a arquitetura do conflito.
Fadwa Barghouti também comentou, de forma concisa, eventos recentes nas prisões, incluindo visitas controvertidas de figuras políticas israelenses de extrema-direita, sem, todavia, detalhar todas as observações. O encontro em Roma incluiu ainda audiências com organizações sindicais e lideranças políticas italianas, refletindo a estratégia de envolver atores internos-chave para pressionar por mudanças internacionais.
Enquanto a diplomacia italiana pondera movimentos no tabuleiro, o pedido palestino é simples na forma e complexo na execução: transformar amizade em reconhecimento e medidas concretas que interrompam a dinâmica de ocupação. Como analista, observo que este é um momento de realinhamento de prioridades — uma jogada que pode reconfigurar vetores de influência na região se for entendida e executada com coragem política.
Por Marco Severini, Espresso Italia






















