Por Marco Severini – Em Bruxelas e nos salões diplomáticos, declarações formais e pacotes de ajuda costumam ser interpretados como jogadas no tabuleiro da política externa. Ainda assim, há momentos em que um movimento revela, com clareza geopolítica, o redesenho de um eixo de influência. É isso que vemos hoje na Síria: o anúncio público de apoio a uma «transição política inclusiva» coexiste com o avanço, no terreno, de forças que estão sufocando a única experiência democratizante da região.
A União Europeia afirmou repetidamente seu compromisso com uma solução política para a Síria. Paralelamente, o governo de Damasco — cujo pragmatismo recente atraiu o interesse de vários capitais europeus — lança uma ofensiva que empurra para trás as forças da Administração Autônoma do Nordeste Sírio (Rojava). Os curdos das Forças Democráticas Sírias (SDF), que foram aliados essenciais do Ocidente contra o ISIS, estão cercados e cedendo territórios que outrora administravam de forma semi-autônoma.
O movimento das forças governamentais avança desde semanas antes da visita, em 9 de janeiro, dos presidentes da Comissão e do Conselho Europeu, Ursula von der Leyen e António Costa, a Ahmad al-Sharaa em Damasco — encontro que culminou na promessa de um pacote de ajuda de 620 milhões de euros em dois anos. Na mesma janela temporal, Damasco consolidou ganhos em Aleppo, e, nas províncias do norte, cidades simbólicas como Kobane voltaram a ficar sob cerco. Em consequência, campos que abrigam milhares de detentos ligados ao Daesh ficaram mais expostos.
O acordo de cessar-fogo rubricado entre Damasco e as SDF, em 18 de janeiro, foi apresentado como trégua — na prática, configura uma rendição condicionada: a dissolução de estruturas militares curdas, a integração de combatentes nas forças regulares de Assad e a transferência de províncias ricas em petróleo, como Raqqa e Deir ez-Zor, para o controle central. Restaria aos curdos um domínio administrativo limitado em Hasakah, mas com governador indicado por Damasco, reduzindo fortemente a autonomia anterior.
O abandono pelas Estados Unidos acelerou a capitulação das SDF. No entanto, para muitos observadores e representantes curdos no Parlamento Europeu, o cessar-fogo tem contornos de «informação conveniente» — insuficiente para garantir a preservação de instituições que priorizavam direitos humanos e participação feminina.
O Grupo de Amizade pelos Curdos no Parlamento Europeu tentou, em vão, forçar um debate urgente e uma resolução plenária. Entre as vozes dissidentes, Leoluca Orlando e a eurodeputada Evin Incir — esta última de origem curda — denunciaram a omissão: «A União Europeia não pode ficar em silêncio», disse Orlando; Incir qualificou a recusa ao debate como motivo de profunda vergonha institucional.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de uma reordenação com implicações duradouras: quando um ator estatal reconstrói soberania sobre territórios outrora plurais, muda-se não apenas a geografia física, mas também a «tectônica de poder» regional. O que está em risco é mais do que um mapa administrativo: são alicerces frágeis de uma experiência política que, em condições adversas, tentou construir democracia, direitos das mulheres e administração inclusiva.
Para a União Europeia, o dilema é clássico de Realpolitik: ponderar entre reapertar laços com um Estado central recuperado por Damasco — com curto prazo vantajoso para estabilidade e ajuda humanitária — ou reafirmar compromissos com atores locais que representaram, por anos, a única alternativa democrática palpável na Síria. O silêncio institucional europeu, neste contexto, é um movimento que terá custo político e moral, tanto na região quanto perante audiências internas.
Em termos de xadrez diplomático, a jogada atual devolve ao governo central uma posição de força que reconfigura possibilidades e limita alternativas futuras. A comunidade internacional observa, e a decisão sobre quando e como reagir definirá se a União Europeia atua como árbitro de uma transição justa ou como espectadora de um redesenho de poder que apaga uma experiência democrática única.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.






















