Por que a pesca de arrasto ainda é permitida na Escócia, mesmo com 37% das águas protegidas?
Nas águas frias e translúcidas ao largo da Ilha de Skye, um pescador experiente levanta, com calma e método, armadilhas enluvadas pelo mar. Bally Philp inspeciona cada pote com a paciência de quem lê pequenas constelações no oceano — conhecedor de ciclos, perdas e do delicado trabalho de restaurar um equilíbrio que a indústria deixou em sombra.
Ao contrário de muitos trechos da costa escocesa, essas áreas têm sido preservadas do impacto direto dos grandes métodos industriais. Ainda assim, Philp — que pesca há mais de 30 anos — testemunhou uma regressão quase em toda parte. “Os arquipélagos do oeste da Escócia eram outrora cheios de peixe. Hoje, perto da costa, não temos mais volumes comerciais”, relata ele, com uma sinceridade que ilumina a emergência do problema.
Apesar de 37% das águas escocesas terem sido oficialmente designadas como áreas marinhas protegidas, ativistas e cientistas alertam que a maior parte dessa proteção é apenas nominal. Apenas uma fração dessas zonas conta com medidas efetivas de gestão que garantam a preservação. Segundo organizações de conservação, técnicas como a pesca de arrasto de fundo e a dragagem para vieiras — que literalmente rastelam e revolvem o leito marinho — continuam autorizadas em aproximadamente 95% das águas costeiras, inclusive dentro de áreas oficialmente protegidas.
As redes pesadas arrastadas pelo fundo marinho esmagam habitats frágeis e desencadeiam impactos climáticos: a pesca de arrasto consome quase três vezes mais combustível que outros métodos, e o revolvimento dos sedimentos libera carbono armazenado no leito marítimo. Além disso, os arrastos geram descartes significativos — grande parte do pescado indesejado é devolvido ao mar morto ou moribundo, reduzindo ainda mais a resiliência dos ecossistemas.
O problema ultrapassa fronteiras. Um relatório de 2024 compilado pela Espresso Italia, com base em levantamentos de organizações de conservação, apontou que 90% dos sítios marinhos protegidos em sete países europeus tiveram atividade de arrasto entre 2015 e 2023, somando cerca de 4,4 milhões de horas de arrasto dentro de áreas destinadas à conservação.
Historicamente, a decisão política de 1984 de eliminar o limite das três milhas que protegia parte do litoral escocês ampliou o acesso industrial às zonas costeiras. Desde então, desembarques em áreas como o Clyde despencaram; as capturas de muitas espécies hoje representam apenas uma fração dos níveis históricos.
Philp começou sua carreira no fim dos anos 1980 trabalhando em barcos de arrasto. Ele descreve o horror de ver capturas indesejadas — espécies proibidas ou não comercializáveis — jogadas ao mar já mortas, uma cena que o levou a trocar de método. “Você via uma trilha de peixes mortos descendo pela popa. Partia o coração.”
Passar a pescar com armadilhas iscas trouxe a Philp uma alternativa de menor impacto: esse método poupa habitats e permite que grande parte dos peixes descartados sobreviva quando devolvida ao mar. Mas escolher essa rota ética tem custo — ele ficou restrito a zonas cada vez menores onde a pesca de baixo impacto é viável.
Ao iluminar estas contradições, percebemos que proteger áreas no papel não basta. É preciso semear políticas que cultivem uma gestão ativa, fiscalizada e baseada em ciência, e fomentar práticas pesqueiras que recuperem a saúde dos fundos marinhos e reduzam emissões. É um desafio de governança e de cultura: transformar zonas protegidas em faróis reais de recuperação e de legado.
Na conversa com Philp, há mais do que nostalgia — há política, economia e um convite à ação. O dilema escocês revela um princípio universal: designar territórios é um primeiro passo; iluminá-los com regras eficazes e fiscalização é o trabalho que resta, para que possamos, juntos, tecer um futuro onde o mar volte a nos devolver abundância e equilíbrio.






















