Ciao, viajante curioso — sou Erica Santini, sua confidente ítalo-brasileira, e trago uma história que combina tecnologia e poesia: o Japão está a construir o que promete ser o comboio mais rápido do mundo, a Série L0. Produzido e testado pela Central Japan Railway Company (JR Central), este maglev — ou seja, um trem por levitação magnética — pretende atingir impressionantes 603,5 km/h, ultrapassando de forma significativa o atual maglev comercial da China, o Shanghai Maglev, que alcança 460,2 km/h.
Para colocar na mesa: os trens mais velozes da Europa, como o TGV francês e o AGV Italo italiano, operam tipicamente entre 306 e 354 km/h. A diferença não é apenas numérica — é uma mudança de escala que transforma, sensorialmente, a experiência de viajar. Imagine a luz dourada de Tóquio esvaindo-se pelo túnel enquanto a paisagem vira um borrão suave: é assim que a Série L0 promete navegar pelas tradições de velocidade.
Hoje, quem viaja de Tóquio a Nagoya encontra trajetos que variam entre uma hora e 26 minutos e quase duas horas e meia, dependendo do serviço (Shinkansen, Hikari, Kodama). Com a linha Chuo-Shinkansen e a Série L0, esse percurso pode cair para apenas 40 minutos — e um serviço que conecte Tokyo, Nagoya e Osaka encurta distâncias e funde cidades em uma região única e pulsante. Em termos europeus, é o equivalente a reduzir a viagem entre Londres e Edimburgo para apenas 60 minutos — um sonho para executivos, mas um dilema para os amantes do Dolce Far Niente.
Como funciona? O maglev utiliza ímãs e eletricidade para elevar as carruagens acima do trilho, eliminando o atrito e permitindo que um motor elétrico as empurre a velocidades antes inimagináveis. O resultado é um deslizamento quase silencioso, uma sensação de flutuar que ativa os sentidos: o perfume das cidades passando como se fossem quadros, a textura do tempo nas paredes das estações, o sussurro metálico de uma engenharia atenta.
Mas, minha querida audiência, nem toda boa história de velocidade encontra fácil caminho além-mar. O projeto exigiu e exige investimentos colossais — cerca de £52 bilhões (€59,9 bilhões) até agora — e já sofreu atrasos: originalmente previsto para 2027, o cronograma foi protelado por oito anos, com previsão mais realista de inauguração entre 2034 e 2035.
Mesmo para mercados avançados como o Reino Unido e a União Europeia, levar a Série L0 para fora do Japão é um desafio de infraestrutura e de cultura. Estes mercados valorizam conforto, luxo e a experiência da viagem — frequentemente apreciada ao ritmo mais lento, contemplativo, e pela paisagem. A menos que condicionado a rotas puramente funcionais e de negócios, um trem ultra-rápido pode encontrar resistência.
Além disso, o maglev não circula nas linhas convencionais: grande parte do traçado precisaria ser construída do zero, com muitos túneis especialmente escavados. O consumo de energia é elevado em comparação com trens tradicionais, e a capacidade de passageiros da Série L0 é, por enquanto, menor que a dos comboios europeus mais usados — fatores que complicam a equação econômica.
Assim, enquanto sonhamos com a possibilidade de um trem que nos leve de uma capital a outra em silêncio e velocidade, devemos ponderar a logística, o custo e, sobretudo, o sentido do próprio viajar. Andiamo devagar e com curiosidade: a Série L0 já é um encanto técnico, mas se verá compatível com as paisagens sociais e infraestruturais da Europa, isso ainda está por ver. Em breve, quando o maglev deslizar comercialmente entre Tóquio e Osaka numa hora, prometo partilhar um aperitivo de impressões: saborear a história nunca foi tão rápido.




















