Marco Severini para Espresso Italia — Em um movimento calculado que lembra um lance decisivo no tabuleiro diplomático, o advogado de Jacques Moretti transferiu a crítica sobre as causas do trágico incêndio de Ano Novo em Crans-Montana para os alicerces administrativos locais. Em entrevista à Rsi, Patrick Michod afirmou que a espuma fonoabsorvente cuja presença é apontada como determinante no fogo do bar Le Constellation estava visivelmente exposta durante as inspeções do município e, portanto, “não era considerada perigosa”.
Na sua leitura — concisa e jurídica — Michod sustenta que, por ter sido acessível e não oculta, a espuma não suscitou observações técnicas que pudessem configurar negligência atribuível aos administradores do estabelecimento. Tal declaração, colocada com serenidade estratégica, busca excluir perfis de culpa em relação ao seu cliente, Jacques Moretti, proprietário do local agora destruído pelo incêndio que ceifou a vida de 40 pessoas e deixou centenas de feridos.
A analogia com uma arquitetura de responsabilidade é pertinente: quando um elemento é visível ao olhar institucional e este não aponta risco, cria-se uma lacuna de responsabilidade que se transforma em terreno de disputa judicial. Michod explora exatamente essa lacuna, afirmando que os responsáveis pela segurança — agentes que inspecionaram o local — não detectaram qualquer perigo especial relacionado às espumas.
A procuradora-geral do Cantão do Valais, Beatrice Pilloud, porém, adotou postura mais contida e técnica. Em nota oficial, esclareceu que, atualmente, apenas os gestores do estabelecimento estão formalmente indiciados, mas o Ministério Público reserva-se o direito de ampliar as investigações a quaisquer outros que possam ter responsabilidade penal. Até o momento, cerca de 130 partes ofendidas e civis se constituíram como assistentes, representadas por aproximadamente 50 advogados — um movimento jurídico de grande envergadura que redesenha fronteiras invisíveis entre culpa e omissão.
O episódio humano permanece no centro da tectônica de poder que acompanha o caso. Entre as vítimas, a jovem de 29 anos Eleonora Palmieri exibiu, publicamente, o rosto marcado por queimaduras, recordando a dimensão trágica do desastre: “Um centímetro de cada vez, penso nos anjos que não voltaram para casa”, disse. No hospital Niguarda permanecem internados dez dos feridos; há relatos de recuperação gradual de alguns jovens, enquanto outros aguardam intervenções cirúrgicas.
Do ponto de vista estratégico, o cenário processual deve ser observado como um jogo de posições: a defesa busca isolar a responsabilidade no terreno administrativo municipal; o Ministério Público, por sua vez, mantém a carta da extensão da investigação. Em termos práticos, essa é uma disputa sobre quem mobiliará o ônus da prova — e, em um sentido mais amplo, sobre os limites dos controles públicos sobre espaços privados de entretenimento noturno.
Enquanto a investigação segue seu curso, permanece o imperativo de responsabilização e de políticas públicas que reforcem a segurança nos espaços coletivos. A tragédia de Crans-Montana é, antes de tudo, um chamado à revisão dos procedimentos de inspeção e à reconstrução de normas que evitem que tais erros se repitam.






















