Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance decisivo em um final de partida de xadrez, Donald Trump não apenas irritou interlocutores: ele tornou visível, em praça pública, a assimetria de poder que percorre as relações transatlânticas. Ao transformar Davos, a NATO e até a Groenlândia em palcos distintos da mesma operação diplomática, ficou patente que os alicerces da autonomia estratégica ocidental estão hoje mais frágeis do que se admite nas declarações públicas.
O espetáculo foi clínico: dirigentes europeus em pose compungida, protocolos alinhados, enquanto Washington redesenha condições e calendários. Não foi apenas diplomacia; foi uma demonstração de hegemonia encenada. O resultado é que a noção de soberania —que por anos se fez maleável no debate europeu— reaparece de maneira quase litúrgica, porém seletiva: sacralizada quando a pressão vem do Oeste, relativizada quando a pressão vem do Leste.
Na economia estratégica, a Europa cometeu seu pecado original: assumir, por conveniência, a dependência de um suprimento energé tico que lhe garantia competitividade, ao mesmo tempo em que, na esfera política, demonizava o fornecedor quando isso parecia conveniente. As sanções —aplaudidas como gesto moral— não foram acompanhadas por alternativas energéticas viáveis. A transposição para GNL americano, a custos elevados, foi vendida como solidariedade, mas na prática representa uma dependência reformulada em outros termos.
A saga da Groenlândia simboliza esse redesenho de fronteiras invisíveis: sem recorrer à força aberta, os Estados Unidos usaram influência econômica e logística para negociar acesso a recursos estratégicos e instrumentos de defesa (incluindo capacidades antimísseis) num arranjo que lembra uma vassalagem moderna. A ilha, por sua vez, viu-se forçada a medidas de autoproteção simbólicas enquanto decisões decisivas eram tomadas por atores externos. Não houve invasão, mas houve um acordo negociado sob a sombra de uma superioridade clara de meios.
Nesse tabuleiro, a NATO surge menos como uma comunidade de defesa entre pares e mais como um mecanismo funcional aos interesses norte-americanos: quem paga mais ou quem cede posições estratégicas. A exigência de maiores contribuições financeiros é explícita; a expectativa de concessões estratégicas também. A Europa, com limitações políticas e industriais, aceita porque lhe faltam alternativas estruturais —um problema de capacidade tanto quanto de vontade política.
Enquanto isso, Moscou é usado com frequência como bode expiatório conveniente. A Rússia, é preciso registrar com frieza estratégica, propôs por anos modelos de arquitetura de segurança eurasiática que, se analisados sem viés, buscavam regras claras sobre indivisibilidade da segurança. A resposta europeia foi na maioria dos casos delegar a liderança à Aliança Atlântica e adotar uma postura reflexa de contensão, mais instintiva que calculada. Hoje, a Europa arca com o custo dessa opção e, não obstante, insiste em narrativas que responsabilizam somente o exterior.
O diagnóstico é, portanto, claro: reagimos aos lances do adversário sem construir a própria estratégia de longo prazo. Para recuperar iniciativa, é preciso primeiro reconhecer o problema —um vazio de soberania industrial e estratégica— e depois mobilizar os recursos diplomáticos e econômicos para preenchê-lo. Isso passa por reconstruir cadeias energéticas resilientes, redefinir mecanismos europeus de defesa cooperativa com autonomia decisória real, e repensar alianças de modo a não converter a organização transatlântica num mero instrumento de interesses de um só polo.
Como analista, afirmo que não se trata de retórica unilateralista; trata-se de arquitetura geopolítica. O tabuleiro mudou: quem quiser preservar influência deve desenhar novas aberturas, fortalecer peões industriais e proteger as torres da diplomacia. Caso contrário, a Europa continuará a ser palco de negociações em que seus destinos são decididos por jogadas externas —e não por uma estratégia própria, coerente e sustentável.






















