Por Marco Severini, Espresso Italia. Em um movimento que redesenha — ainda que temporariamente — os contornos processuais em torno da tragédia de Ano-Novo, Jacques Moretti, proprietário do bar Le Constellation em Crans-Montana, deixará a prisão após o pagamento da caução fixada em 200.000 francos.
Segundo comunicado do Tribunal para as Medidas Coercitivas (Tmc) de Sion, a quantia determinada pela Procuradoria e considerada «adequada e dissuasiva» pelo Tribunal foi depositada na conta do Ministério Público. Dois períodos de duas semanas de prisão preventiva desde sua custódia foram suficientes para que, frente a uma nova avaliação do risco de fuga, o tribunal revogasse a prisão cautelar, mantendo contudo a liberdade sob medidas restritivas.
As condições impostas ao liberto incluem, conforme o próprio Tribunal relatou, as medidas clássicas destinadas a mitigar o risco de evasão: proibição de deixar o território suíço, obrigação de entregar à Procuradoria todos os documentos de identidade e de residência e a obrigação de apresentar-se diariamente a uma estação de polícia. A decisão levou em conta, explicitamente, não só a reavaliação do risco de fuga, mas também a natureza da relação do acusado com quem pagou a caução — identificado pela Justiça como «um dos seus melhores amigos».
O episódio ocorre sob a sombra pesada do incêndio que devastou o estabelecimento na noite de Réveillon e que resultou na morte de 40 pessoas. Em termos de ordem pública e percepção, essa libertação por caução é um movimento estratégico: reduz a tensão no curto prazo ao permitir investigações sem a presença contínua em prisão do proprietário, mas também suscita reações vigorosas da opinião pública e das famílias das vítimas, que veem nas medidas cautelares um descompasso entre responsabilização e sofrimento.
No terreno médico e humanitário, o sistema de saúde lombardo continua a lidar com as consequências do sinistro. O assessor regional ao Bem-Estar, Guido Bertolaso, comunicou que dois dos jovens feridos e transferidos para o Hospital Niguarda de Milão receberam alta na manhã de hoje. Ambos são estudantes de colégios científicos de Milão; os médicos consideraram retirada a prognose, mas alertaram que o processo de recuperação permanece longo, com múltiplas visitas e tratamentos de reabilitação ainda necessários. Segundo Bertolaso, a expectativa é que, em algumas semanas, consigam retomar a rotina escolar de forma gradual.
Permanece, entretanto, um quadro clínico grave para outros pacientes: três jovens seguem em unidades de terapia intensiva com problemas respiratórios severos devido à inalação de fumaça, sob contínuos cuidados, ventilação e procedimentos de estabilização.
Do ponto de vista jurídico-diplomático, a situação é uma posição de xadrez: o pagamento da caução é um lance que preserva direitos individuais e permite o prosseguimento de instrução técnica, ao mesmo tempo em que exige do sistema judiciário suíço garantias rígidas — o controle de fronteiras internas, a fiscalização diária e a restrição de mobilidade são as peças que mantêm o rei sob vigilância.
Enquanto a investigação prossegue, permanecem fundamentais a transparência e a firmeza institucional para que as famílias das vítimas percebam que o alicerce da justiça não é apenas contábil, mas processual e moral. A tectônica de poder entre necessidade de apuração e pressão pública precisará encontrar equilíbrio para que as próximas jogadas — judiciais e políticas — reconstruam, de forma ordenada, a confiança abalada por uma tragédia de proporções humanas e simbólicas.






















