Chiara Lombardi para Espresso Italia — Em um diálogo que parece um espelho do nosso tempo, converso com Giovanni Serafini (n. 1942), figura obstinada e fiel à tradição da arte figurativa italiana. Originário da confluência lombardo-friulana, Serafini vem de uma formação em técnica industrial, mas a sua vida pulsa há décadas no circuito das artes: colecionador, pesquisador de talentos, crítico e curador. Com uma postura intransigente e independente, ele defende uma visão da arte pautada pela exigência estética e pelo juízo pessoal, sempre respeitável justamente por sua subjetividade.
Chiara Lombardi — Giovanni, quando nos encontramos anos atrás, dividíamos o compromisso de valorizar a tradição pictórica italiana. Em poucas palavras: qual é o atual estado da arte?
Giovanni Serafini — Se devo usar uma palavra, diria que as artes plásticas estão em condição preagonística. Assistimos a um século de mistificações em que qualquer excentricidade foi elevata a obra. As galerias, muitas vezes subjugadas a um mercado deformado, fecham ou se tornam meros espaços de aparição. Poucos galeristas preservam autonomia crítica; outros aceitaram a lógica do aluguel de sonhos. Nas inaugurações e feiras, predominam rostos envelhecidos. O desinteresse dos jovens é flagrante: imersos em imagens efêmeras de telas que tudo mostram e logo esquecem, eles não frequentam mais exposições, conferências ou lançamentos. Soma-se a isso o empobrecimento de uma média que costumava adquirir obras — um colapso que pressiona artistas, exceto os já consagrados. E não falo nem da arquitetura contemporânea, que frequentemente privilegia a exibição de altura em detrimento da razão e do contexto.
Chiara Lombardi — Há quem diga que a aceleração digital e a Inteligência Artificial representam uma nova etapa emancipadora. Por que você enxerga uma ameaça?
Giovanni Serafini — A tecnologia reescreve cenários: a automatização da imagem e a geração algorítmica podem tornar obsoleta a figura do artista como conhecíamos. A Inteligência Artificial promete produtividade e soluções formais, mas corre o risco de empobrecer o gesto humano, aquilo que confere singularidade e memória às obras. Se a arte perder o laço com a experiência vivida e com a intencionalidade sensível do criador, estaremos diante de produtos visuais, não de obras destinadas à permanência.
Chiara Lombardi — O que dizer sobre a própria ideia de ‘arte contemporânea’?
Giovanni Serafini — Pessoalmente, rejeito categorias absolutas como ‘arte contemporânea’ ou ‘arte moderna’ quando usadas como juízo de valor. Ser contemporâneo é apenas ser coevo. A verdadeira força de uma obra é a sua capacidade de transcender o tempo. Obras como o busto de Nefertiti, o Galata morente, o Laocoonte ou os Bronzi di Riace — apesar do anonimato de seus autores — testemunham que o diagnóstico crítico não deveria ficar refém de cronologias estreitas. A grande arte alcança uma universalidade que excede a efemeridade das modas.
No entanto, a pergunta crucial permanece: quem hoje tem coragem e legitimidade para ser crítico? Num mercado que privilegia a circulação rápida e a imagem como mercadoria, a crítica de arte corre o risco de virar comentário de vitrine. O crítico e o curador — quando atuam com rigor — exercem o papel de cartógrafos do gosto coletivo, traçando rotas e preservando memórias. Eles são o roteiro oculto da sociedade, capazes de recusar atalhos e devolver profundidade ao diálogo público.
Como observadora, vejo o momento atual como um reframe: o cenário cultural sofre erosões, mas também gera resistência. Há artistas que, recusando a facilidade da imagem pronta, retomam uma prática artesanal e reflexiva. Essa contracorrente é um sinal de vida. A tarefa dos mediadores culturais é amplificar essas vozes, reconstruir a curiosidade e lembrar que a arte não é apenas entretenimento — é um dispositivo de memória coletiva e um espelho que reflete o roteiro da nossa sociedade.
Concluo com uma provocação: se aceitarmos que tudo é arte, perdemos a faculdade de escolher o que merece preservação. Se, ao contrário, defendermos critérios críticos consistentes, recuperamos a possibilidade de uma cultura que conversa com o futuro — não apenas com a tela do momento. Em suma, a crítica de arte e a prática curatoral permanecem essenciais, desde que se recusem a ser meras extensões do mercado e retornem ao ofício de pensar, contextualizar e preservar.
Chiara Lombardi é analista cultural ítalo-brasileira do Espresso Italia. Escreve sobre cinema, artes e o impacto social das tendências culturais.






















