Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que provisoriamente, as linhas do tabuleiro geopolítico, tiveram início em Abu Dhabi as negociações trilaterais entre Ucrânia, Rússia e os EUA. Fontes de imprensa internacional sinalizaram que os trabalhos começaram, embora persista a dúvida sobre se delegações russa e ucraniana compartilham a mesma sala ou atuam por canais separados — um detalhe tático cujo significado não deve ser subestimado.
Do lado russo, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reiterou uma condição considerada inegociável por Moscou: as forças armadas ucranianas devem se retirar do Donbass. “É uma condição muito importante”, disse Peskov, acrescentando que, sem a questão territorial regularizada, seria “inútil esperar uma conclusão de um acordo de longo prazo”. A insistência sobre o Donbass coloca um tema territorial no centro das conversas e sugere que Moscou entende qualquer solução duradoura como intimamente ligada ao controle ou ao estatuto daquela região.
Do ponto de vista ucraniano e ocidental, circulam relatos de que o presidente Volodymyr Zelensky estaria disposto a aceitar um documento de garantias de segurança por parte dos EUA. A imprensa aponta que um acordo sobre salvaguardas americanas — possivelmente contendo compromissos políticos e militares de assistência — poderia acompanhar concessões operacionais no terreno. Trata-se de um intercâmbio clássico de prêmios e contraprestações, onde garantias externas buscam compensar perdas territoriais ou cessar-fogos locais.
Em Roma, o ministro das Relações Exteriores italiano, Antonio Tajani, comentou a situação ressaltando que a Europa tem sido peça-chave no apoio à independência ucraniana, considerando o apoio político, financeiro e militar já prestado. Tajani também observou, de forma crítica, que a posição pública de Zelensky em Davos contra parceiros europeus não foi — em sua avaliação — uma atitude generosa perante aqueles que têm oferecido auxílio substancial.
Analiticamente, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro: Abu Dhabi aparece como um palco neutro onde a tectônica de poder entre Rússia, Ocidente e um ator ucraniano pressionado tenta encontrar novos equilíbrios. A exigência de retirada do Donbass é ao mesmo tempo um ponto de partida negociador e uma âncora geográfica — atrelada à narrativa russa sobre integridade de sua influência regional.
Há várias incógnitas estratégicas. Primeiro, se a exigência russa se materializará em proposta escrita com cláusulas verificáveis; segundo, se as garantias americanas serão suficientes para compensar, na percepção ucraniana, eventuais perdas territoriais ou restrições operacionais; e terceiro, como a União Europeia reagirá se Kiev aceitar compromissos que possam ser interpretados como cedências substanciais.
Do ponto de vista diplomático, negociações desse tipo costumam alternar fases públicas e privadas, movimentos de contenção e ofertas incrementais. A presença ou não das delegações na mesma sala é mais do que protocolo: pode indicar se avançará a negociação face a face de alto risco ou se prevalecerão canais intermediários, onde cada parte prensa aliados para criar clima favorável.
Em resumo, Abu Dhabi marca um momento de possível reequilíbrio: a Rússia custo, com a condição sobre o Donbass; a Ucrânia, buscando garantias externas; e os EUA, na tentativa de arquitetar salvaguardas que mantenham Kiev inserido em um sistema de segurança pró-ocidental. As próximas horas e dias dirão se este é um gesto simbólico de diplomacia ou o início de um real redesenho das fronteiras invisíveis da influência regional.






















