Não há indicação nem um único italiano entre os candidatos aos Oscar deste ano. Esse silêncio — que pesa mais que qualquer ausência de tapete vermelho — deveria servir como alerta: celebramos bilheterias, aplaudimos lançamentos, mas não sabemos exportar nem preservar o que de melhor produzimos.
Não me recordo exatamente desde quando a Itália ficou sem representantes na corrida pela estatueta, mas a sensação de vazio é óbvia. Não é uma questão apenas de qualidade: fazemos cinema italiano relevante há décadas e continuamos a fazê-lo. O problema está na incapacidade sistemática de proteger, promover e difundir nossos criadores no exterior. O espelho do nosso tempo revela que, por trás de muitos sucessos de público, existe um roteiro oculto de falta de estratégia institucional e de interesse internacional.
Quem fala de vitória só pelo desempenho nacional deveria refletir: o sucesso no box office local não é sinônimo de presença global. Enquanto continuarmos a tratar exibições e festivais como meras vitrines ou oportunidades para viagens gratuitas, perderemos o jogo de bastidores necessário para conquistar mercados, prêmios e memória cultural fora da Itália.
No debate sobre as indicações, vale observar outra camada do ecossistema: os grandes conglomerados. Os dois títulos com mais nomeações — I peccatori (16 categorias) e Una battaglia dopo l’altra (13) — são produções da Warner. Será que a mesma força de campanha se manteria se esses filmes estivessem nas mãos da Netflix? A resposta envolve o poder da máquina de promoção, das redes de pressão e da logística de contato com mais de 10 mil votantes que, no fim, decidem os prêmios.
As previsões apontam para nomes como Jessie Buckley por “Hamnet” e Timothée Chalamet por “Marty Supreme” em destaque nas suas categorias. Há ainda a possibilidade de a animação coreana voltar a surpreender e derrotar gigantes como a Disney, assim como aconteceu nos Golden Globes — eu torço por “La piccola Amélie”. Nos prêmios principais, muito pode pender pelo senso de culpa cultural dos votantes, ou pela vontade de afirmar o orgulho negro exaltado em “I peccatori”.
O Oscar de 15 de março será um termômetro do estado atual do cinema global: quem convence, quem mobiliza e quem consegue transformar narrativa em presença. Para a Itália, a ausência deveria ser um chamado para revisar políticas públicas, estratégias de exportação cultural e redes de apoio aos talentos — caso contrário nossa produção continuará sendo um eco interno, linda mas pouco ouvida lá fora.
Em contraste com essa aridez institucional, surge uma notícia que reencontra a dimensão épica do cinema italiano: está disponível online o trailer de Operação Batiscafo Trieste. A produção, escrita e dirigida por Massimiliano Finazzer Flory, chega exatamente 66 anos após a histórica descida na Fossa das Marianas, ocorrida em 23 de janeiro de 1960. O documentário será exibido em pré-estreia nos dias 6 e 7 de março no Cinema Ariston, em Trieste, e seguirá — nas trilhas do batiscafo — por Nápoles, Roma, Milão e, no final de março, pelos Estados Unidos, com projeções em Washington e Nova York.
Se o cinema é um espelho que nos devolve a imagem de um tempo, então precisamos aprender a lapidar esse espelho para que o mundo nos veja. A ausência italiana nos Oscars não é uma falha estética, é um sintoma político e cultural. Reescrever essa narrativa é urgente: nos créditos finais do filme chamado futuro, devemos estar presentes, e não apenas como figurantes.






















