Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, em silêncio, as linhas de influência e suspeita no tabuleiro da investigação de Crans‑Montana, surgem novos elementos financeiros que obrigam a reavaliar o contexto patrimonial dos proprietários do bar Le Constellation. Documentos citados pelo jornal Le Figaro indicam que os cônjuges Jacques e Jessica Moretti teriam contraído contratos de empréstimos cujo montante total chega a €6,4 milhões, valor que contrasta de forma aguda com o reddito mensile declarado — equivalente a cerca de €10.700 por mês para as três sociedades vinculadas ao casal.
O detalhe não é meramente contábil. Em cenários de alta tensão judicial, a geografia do patrimônio funciona como mapa de interesses e possíveis alavancas — e no caso Moretti, esse mapa aponta para pelo menos cinco financiamentos distintos destinados a imóveis comerciais e residenciais: aproximadamente €1,4 milhão para o restaurante Le Senso; €1,8 milhão para o próprio bar Le Constellation; €1,4 milhão para o restaurante Le Vieux Chalet; outros €1,4 milhão para a residência principal do casal; e cerca de €400 mil para um apartamento em Cannes.
Além disso, relatórios apontam a existência de veículos de luxo no patrimônio dos Moretti, um detalhe que, somado ao perfil dos empréstimos, cria um contraste visível entre obrigações creditícias e renda operacional declarada. Le Figaro baseia suas pontuações em documentos e nas declarações feitas pelo casal em sede judicial.
Enquanto isso, no plano processual, o caso conserva camadas de mistério que dizem respeito diretamente ao momento crítico da tragédia. As onze câmeras internas do Le Constellation cessaram a gravação às 01:23 — exatamente três minutos antes do incêndio que destruiu o local e ocasionou 40 vítimas fatais, além de numerosos feridos graves. As imagens posteriores foram classificadas como “irrecuperáveis”; essa interrupção temporal é um dos elementos centrais do inquérito.
No aspecto humano e probatório, a esposa, Jessica Moretti, passou por um interrogatório de cerca de dez horas, onde alegou ter fugido levando o caixa para procurar ajuda. Essa versão contrasta com registros em vídeo que a mostram filmando, com o seu smartphone, fogos ou bengalas acesas sobre garrafas — uma dessas garrafas teria gerado a fagulha que desencadeou o incêndio. O marido, Jacques Moretti, encontra‑se encarcerado e é investigado por homicídio múltiplo, lesões e incêndio culposo; ele também respondeu a questionamentos por aproximadamente dez horas em presença de promotores e advogados.
Outro ponto que perfila no inquérito é o da licença do estabelecimento: circulou a afirmação de que os Moretti teriam adquirido a licença por 1 franco — alegação que o próprio Jacques contestou, afirmando que a atividade estava então encerrada.
Do ponto de vista estratégico, esta sequência de fatos — empréstimos volumosos, renda declarada relativamente modesta, interrupção das gravações e contradições nas versões pessoais — revela um jogo complexo de posições e pontos de tensão. Como num fim de partida de xadrez, cada peça do tabuleiro — documentos bancários, imagens, depoimentos — pode alterar significativamente o desenho final da responsabilidade e do dano.
Enquanto a investigação prossegue, a fotografia desses elementos financeiros e técnicos será determinante para reconstruir não só a dinâmica do incêndio, mas também as estruturas econômicas que sustentavam o empreendimento. A estabilidade da narrativa judicial dependerá, agora, da convergência entre prova técnica e rastreio patrimonial.






















