Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento que reacende tensões transatlânticas e redesenha, no plano retórico, linhas de segurança nacional, o presidente Trump publicou uma provocação destinada tanto aos aliados quanto à arquitetura da própria aliança: sugeriu em sua plataforma Truth que se deveria “testar” o artigo 5 da OTAN solicitando a proteção da fronteira EUA-México contra fluxos de imigração ilegal.
A proposta, inédita em suas implicações, converte um fenómeno migratório — político, econômico e humanitário — em dispositivo de defesa coletiva, tradicionalmente reservado a agressões militares contra Estados-membros. Ao equiparar o que qualificou de “invasão de imigrantes ilegais” a uma ameaça que justificaria a invocação do artigo 5, Trump propõe um movimento decisivo no tabuleiro da segurança, que põe em xeque os alicerces da diplomacia multilateral.
No post, o presidente afirmou que a medida obrigaria a OTAN a posicionar forças ao longo do limite sul dos Estados Unidos, o que, segundo ele, permitiria realocar unidades da Border Patrol para outras missões internas. A mensagem surge após uma série de críticas públicas do mandatário à Aliança, alegando que Washington não recebe o mesmo nível de compromisso dos aliados que os EUA destinam a eles: “Saremo sempre lì per la Nato, anche se loro non saranno lì per noi”, escreveu há semanas — lembrança explícita de uma percepção de assimetria nos deveres de segurança.
Além disso, Trump reavivou a teoria de que organizações multilaterais como a OTAN e a ONU poderiam, paradoxalmente, constituir riscos para interesses estadunidenses, mais do que potências concorrentes como China e Rússia. A afirmação, amplificada nas redes, agrava o já delicado diálogo com capitais europeus reunidos em Davos, onde o presidente manteve contatos com diversos líderes, incluindo o primeiro-ministro holandês Mark Rutte.
A provocação não surge isolada. Faz parte de uma estratégia mais ampla que observadores definem como tentativa de redefinição unilateral dos contornos da segurança norte‑americana: em Davos, Trump vinculou a agenda da OTAN a interesses geoestratégicos no Ártico e na Groenlândia, sugerindo maior controle e acesso a recursos minerais, numa cartografia de influência que propõe um redesenho — ainda que simbólico — de fronteiras invisíveis.
Paralelamente, permanecem as tensões com o México, após ameaças reiteradas de operações terrestres contra cartéis de droga dentro do território mexicano. A combinação de retórica sobre migração, soberania e recursos naturais compõe um mosaico complexo: mais que mera bravata, são tentativas de reposicionar os EUA como pivô de uma nova tectônica de poder.
Do ponto de vista estratégico, a ideia de convidar a OTAN a intervir em solo norte-americano constitui um xeque-mate instigante, mas perigoso. Praticá-la implicaria não apenas numa alteração doutrinária da aliança, como numa erosão dos princípios de autonomia e jurisdição que sustentam o sistema internacional contemporâneo. Num tabuleiro onde arquitetura e cartografia se sobrepõem, a proposta de Trump revela tanto a vontade de expandir a caixa de ferramentas da política externa quanto os alicerces frágeis da diplomacia coletiva quando submetida a pressões domésticas e geopolíticas.
Mais do que uma explosão de retórica, temos aqui um movimento calculado: testar limites institucionais, avaliar reações e forçar negociações em terreno vantajoso. Resta saber se os aliados aceitarão o convite para esse jogo ou recusarão, preservando a tradição da defesa mútua contra agressões estatocêntricas e não contra fluxos humanos e problemas transnacionais.






















