Por Alessandro Vittorio Romano — Em um painel que busca traduzir números em sensações cotidianas, a Gimbe apresentou dados que soam como o vento frio de uma manhã de janeiro sobre a paisagem da saúde pública italiana: entre 2012 e 2024 os gastos com pessoal de saúde caíram de 39,7% para 36,6% do total das despesas sanitárias. Esse deslocamento percentual traduz-se, virtualmente, em uma perda de 33,04 bilhões de euros, dos quais 12,82 bilhões ocorreram apenas no período 2020-2024.
A estimativa foi ilustrada por Nino Cartabellotta, presidente da Fundação Gimbe, durante sua audiência na Câmara dos Deputados sobre o projeto de lei que pretende reformar as profissões de saúde. A simulação da fundação mostra que, apesar do aumento global da despesa sanitária, os recursos destinados aos profissionais não acompanharam esse crescimento — como se a árvore da assistência tivesse mais folhas, mas menos seiva para alimentar suas raízes.
Cartabellotta não poupou imagens fortes para descrever a consequência desse descompasso: um verdadeiro “saque” de recursos públicos que, progressivamente, “enfraqueceu e desmotivou o capital humano do serviço sanitário nacional”, impulsionando a saída para o setor privado e alimentando uma crescente desafeição por certas profissões e especialidades.
Uma das críticas centrais ao projeto de lei, segundo a Gimbe, é a ausência de verbas especificamente destinadas aos trabalhadores da saúde. Sem recursos adicionais e vinculados ao pessoal, a lei delegada e os eventuais decretos legislativos decorrentes correm o risco de se limitar a uma reorganização meramente administrativa — incapaz, portanto, de enfrentar a crise estrutural de atração e retenção de profissionais.
Como observador do cotidiano e das marés que movem o bem-estar coletivo, vejo nessa redução um outono prolongado: a cidade respira, mas internamente há um inverno da motivação que corrói a disponibilidade daqueles que sustentam o sistema. Profissionais sobrecarregados e mal remunerados tendem a buscar outras paisagens — privadas ou estrangeiras — deixando lacunas que não se curam apenas com normas.
Para além dos números, a mensagem da Gimbe é um apelo por políticas que replantem as raízes do cuidado: investimentos dedicados e vinculados ao pessoal de saúde, planos de carreira claros, salários compatíveis e medidas que valorizem a permanência no serviço público. Sem essas medidas, as reformas correm o risco de serem folhas soltas ao vento, bonitas no papel, mas incapazes de nutrir o tronco do sistema.
O debate na Câmara prosseguirá, e cabe aos legisladores ouvir não apenas a matemática dos relatórios, mas a respiração pausada das jornadas hospitalares, o ritmo das especialidades em fuga e a necessidade de um investimento que seja, antes de tudo, humano.
Observação final: entender a saúde como uma colheita que precisa ser cultivada com tempo e recursos é o primeiro passo para que a reforma proposta não seja apenas um arranjo estético, mas um verdadeiro replantio do bem-estar coletivo.






















