No décimo aniversário da morte de Pinuccio Sciola, um dos nomes centrais da escultura italiana do pós-guerra, nasce o Arquivo Digital de Pinuccio Sciola: uma biblioteca digital estruturada que torna consultáveis documentos, imagens, projetos e materiais digitalizados que compõem o legado do artista. O lançamento marca não só a preservação técnica mas também um gesto de recontextualização cultural — como se colocássemos um espelho do nosso tempo diante da obra de Sciola para entender melhor o roteiro oculto da sociedade que a produziu.
A iniciativa foi promovida pela Fondazione Pinuccio Sciola, criada em 2016 pelos filhos Chiara, Tomaso e Maria, em parceria com a empresa Hyperborea do Grupo Panini Cultura. A plataforma digital foi desenvolvida sobre o software Arianna4, adotado por várias instituições culturais para gerir e valorizar acervos. O objetivo é claro: preservar, ordenar e facilitar o acesso a uma herança complexa, permitindo pesquisa e consulta sem amarras geográficas ou temporais.
O Arquivo Digital reúne materiais heterogêneos — da documentação de exposições à rassegna stampa, da bibliografia à catalogação da produção escultórica — e propõe relações entre esses elementos, reconstruindo a rede de conexões traçada pelo artista ao longo da vida. Essa obra em rede funciona como uma semiótica do objeto: cada peça não é só matéria, mas nó numa narrativa maior sobre memória, lugar e som.
De especial relevância é a coleção intitulada “I luoghi di Sciola”, que contém mais de 400 projetos, muitos realizados e outros apenas em estudo. O conjunto inclui manuscritos, bozzetti e materiais preparatórios que permitem reconstruir o processo criativo — o esboço, a matéria, a tensão entre pedra e gesto. Paralelamente, cerca de 2.000 documentos e 50 obras gráficas foram catalogados segundo o padrão IIIF (International Image Interoperability Framework), recurso que habilita consultas avançadas e interativas, fundamentais para pesquisas comparativas internacionais.
Financiado por recursos do PNRR no âmbito do edital europeu Next Generation EU — Transizione Digitale Organismi Culturali e Creativi e com o contributo da Regione Sardegna, o projeto coloca o acervo de Sciola em diálogo com as infraestruturas digitais contemporâneas. A digitalização aqui não é simples reprodução: é uma estratégia de ampliação do alcance crítico e curatorial, uma infraestrutura pensada para sustentar investigação acadêmica, crítica e programas de valorização que evoluirão ao longo do tempo.
Como analista cultural, vejo no arquivo uma oportunidade para ler Sciola além do objeto isolado: suas pedras que vibram e seus projetos de lugar (os “luoghi”) tornam-se mapas afetivos e políticos. Esta digital library transforma o estatuto da obra em interface pública — uma janela para estudar como um artista arquitetou diálogos com o território, com tradições europeias de intervenção pública e com a memória coletiva.
O Arquivo Digital de Pinuccio Sciola é, portanto, ao mesmo tempo um ato de conservação e um convite à circulação crítica. Ao disponibilizar manuscritos, esboços, imagens e registros, a Fundação assegura que o percurso artístico do Maestro continue a provocar reflexões, pesquisas e reinterpretações, consolidando sua presença no cenário cultural italiano e internacional.






















