Por Marco Severini, Espresso Italia. Em um movimento que redesenha discretamente os alinhamentos do continente, Itália e Alemanha se encontram hoje em Roma para um vertice intergovernamental que marca um avanço do eixo italo‑alemão na arena europeia. O encontro entre a primeira‑ministra Giorgia Meloni e o chanceler Friedrich Merz representa mais do que uma visita de protocolo: é um movimento decisivo no tabuleiro da diplomacia europeia, com propostas concretas para reformar o funcionamento das instituições da União Europeia.
No Fórum Econômico Mundial de Davos, Merz anunciou a elaboração conjunta com Meloni de um pacote de novas ideias destinadas a tornar a UE mais eficiente. Entre as medidas em discussão figura um mecanismo descrito como um freio de emergência sobre a sobrecarga burocrática, concebido para acelerar decisões e liberar o potencial econômico do bloco. O objetivo declarado é uma Europa mais ágil e uma administração pública orientada ao serviço — formulações que trazem à mente a substituição de peças na arquitetura institucional, sem, porém, abalar os alicerces do sistema.
A dinâmica entre Roma e Berlim também ganhou tração em torno do tema da competitividade. Impulsionados por uma posição comum, os dois países conseguiram a convocação de um Conselho Europeu extraordinário em 12 de fevereiro, exclusivamente dedicado à competitividade. O documento conjunto elaborado por Itália e Alemanha antecipa propostas para redução da burocracia, procedimentos mais rápidos e um reforço do mercado único como vetores para relançar o crescimento europeu.
Em paralelo, a capacidade de influência do novo eixo ficou patente na retificação de uma decisão da Comissão Europeia sobre a proibição da venda de carros com motor a combustão a partir de 2035. A pressão combinada de Roma e Berlim levou a uma revisão de rumo, evidenciando que os vetores de poder hoje se movem também por alinhamentos pragmáticos e interesse compartilhado em preservar setores industriais estratégicos.
A imprensa econômica alemã, incluindo o Handelsblatt, tem destacado este realinhamento, apontando que a premiê italiana estaria assumindo, progressivamente, o papel de interlocutora privilegiada do chanceler alemão, inclusive na definição de uma linha europeia comum perante Washington. Esta convergência é lida como sintoma de uma tectônica de poder em transformação, onde o tradicional tandem franco‑alemão enfrenta uma fase de tensão e ajuste.
O vertice em Roma, marcado para as 11h30 em Villa Doria Pamphilj, insere nos horários oficiais uma agenda densa: economia, diplomacia e defesa. O encontro funciona ainda como continuação do Plano de Ação conjunto assinado em Berlim em 2023, que prevê estreitamento do diálogo técnico e político em áreas cruciais como inovação, transição energética e coesão social. Paralelamente ao diálogo entre os dois chefes de governo haverá uma série de reuniões ministeriais; o ministro degli Esteri, Antonio Tajani, participará do Business Forum Itália‑Alemanha, reforçando o perfil econômico do encontro.
Do ponto de vista estratégico, este episódio não é apenas uma soma de iniciativas bilaterais. É, antes, um lance calculado no grande tabuleiro europeu: duas capitais tradicionais que buscam, por vias institucionais e pragmáticas, oferecer respostas rápidas aos desafios geoeconômicos e geopolíticos contemporâneos. Se as propostas forem transformadas em políticas concretas, teremos um redesenho de fronteiras invisíveis da influência, com impactos diretos nas negociações transatlânticas e na capacidade normativa da UE.
Em suma, a cúpula de hoje confirma que a cooperação italo‑alemã deixou de ser mera retórica para se tornar um motor operatório dentro da União. Resta observar se o novo impulso conseguirá conciliar ambição e sustentabilidade, acelerando reformas sem comprometer a coesão do projeto europeu. Movimentos assim exigem precisão de xadrez: um passo em falso pode fragilizar alianças; um gesto bem medido, porém, pode alterar a configuração de poder em benefício de uma Europa mais competitiva e adaptável.






















