Em 23 de janeiro celebra-se a Giornata mondiale della scrittura a mano (Dia Mundial da escrita à mão), uma data que recupera a atenção para um gesto milenar agora progressivamente substituído por teclados e telas. A efeméride propõe uma pausa para questionar o valor de uma prática que foi rotineira por séculos, mas que hoje se aproxima do esquecimento, sobretudo entre as gerações mais jovens.
Diversos estudos indicam que escrever com papel e caneta ativa mais regiões do cérebro do que digitar, favorece o aprendizado, melhora a concentração e estimula a criatividade. A escrita manual é apontada como uma ferramenta eficaz contra a “digital fatigue“, além de potencializar a memorização das informações. Em um mundo amplamente digitalizado, o ato de redigir à mão não é apenas um resquício do passado, mas um exercício de manualidade e paciência que ajuda a focar o pensamento diante do contínuo bombardeio de estímulos visuais.
“Escrever à mão é uma atividade que estimula o desenvolvimento mental e melhora o controle motor, a destreza e também a organização da linguagem”, afirmou o neurologista Alessandro Padovani, diretor da Clínica Neurológica da Universidade de Brescia e ex-presidente da Sociedade Italiana de Neurologia. Para Padovani, tal qual o exercício físico, a escrita à mão contribui para manter o cérebro ativo, treinando a atenção, a coordenação óculo-manual e promovendo o incremento de áreas cerebrais associadas à linguagem.
No âmbito internacional, a UNESCO recebeu um projeto voltado à salvaguarda da escrita manual, acompanhado por uma coleta pública de assinaturas que visa inscrever o cursivo como patrimônio imaterial da humanidade. O Comitê Promotor reúne instituições como o Istituto Grafologico Moretti di Urbino, a Associazione Grafologa Italiana e o OSSMED (Observatório sobre mediação linguística).
O debate sobre a reintrodução do ensino do cursivo no ensino fundamental está aceso. Na Califórnia, por exemplo, voltou a ser lei o retorno do ensino do cursivo para cerca de 2,6 milhões de alunos entre seis e doze anos. Paralelamente, uma pesquisa de neurocientistas da Norwegian University of Science and Technology demonstrou que a escrita manual amplia e intensifica conexões cerebrais, favorecendo a retenção de informações.
O fenômeno do retorno à caneta também ganhou impulso nas redes: em 2024, o TikTok registrou um aumento de 63% no uso da hashtag #calligraphy, impulsionando influenciadores da escrita manual e reforçando um movimento contracultural frente à onipresença digital.
A presidente da Federação de Fonoaudiólogos Italianos (Fli), Tiziana Rossetto, acrescenta um ponto crucial: a escrita à mão é “uma competência importante” e uma “extraordinária academia sensorial” que merece ser valorizada e preservada. Ao mesmo tempo, Rossetto ressalta que, em casos de disgrafia ou dificuldades de coordenação visuo-motora, a utilização do teclado se justifica para facilitar a escrita — “não se deve jamais insistir sobre o distúrbio”.
Apuração e cruzamento de fontes: declarações de especialistas, iniciativas junto à UNESCO, legislação educacional na Califórnia, e estudos científicos convergem para um diagnóstico claro: abandonar a prática sistemática da escrita à mão envolve riscos mensuráveis ao desenvolvimento linguístico e cognitivo. A realidade traduzida pelos dados aponta para a necessidade de políticas educacionais que preservem técnicas manuais de escrita como componente ativo do desenvolvimento cerebral e da alfabetização plena.






















