Por Marco Severini — No palco de Davos, o presidente ucraniano Zelensky proferiu palavras que soam como um diagnóstico severo da cena política europeia: “parece o dia da marmota” — uma metáfora de retorno eterno sem soluções concretas. O discurso não foi apenas um lamento; foi um ataque frontal a um continente que, na visão do líder de Kiev, demonstra falta de vontade política e incapacidade estratégica diante da agressão russa.
Ao condenar a estagnação, Zelensky aproveitou o Fórum de Davos para expor a frustração que há meses marca suas intervenções nos fóruns internacionais. O tom é de quem observa o tabuleiro e vê as mesmas peças sendo movidas sem um plano decisivo: a Europa, diz ele, mostra-se perdida e fragmentada, incapaz de articular respostas corajosas enquanto a guerra prossegue nas fronteiras orientais do continente.
Ao mesmo tempo, o presidente ucraniano anunciou a realização, já marcada para hoje, de conversações trilaterais nos Emirados Árabes Unidos entre representantes ucranianos, russos e americanos — um movimento que traduz a urgência em buscar canais paralelos de negociação, enquanto as grandes capitais europeias aparecem hesitantes.
No centro das críticas de Zelensky está a ausência de medidas palpáveis: segundo ele, iniciativas como o uso de ativos russos apreendidos para apoiar a defesa ucraniana foram bloqueadas, e não houve progressos reais na criação de um tribunal para julgar a agressão russa. “É uma questão de tempo ou de vontade política?”, desafiou o presidente, descrevendo a Europa como um “belo, mas fragmentado caleidoscópio de pequenas e médias potências”.
O quadro que Zelensky traça é também geopolítico: a Europa estaria ocupada em tentar persuadir o presidente dos Estados Unidos — aqui referido como magnata — a mudar de posição, num esforço que, segundo ele, é em vão. De público, o líder ucraniano afirmou ter alcançado um acordo com Donald Trump sobre garantias de segurança americanas, mas Trump declarou, após o encontro bilateral em Davos, que não se discutiu a questão dos territórios.
Enquanto as negociações multilaterais se deslocam — com os enviados americanos Witkoff e Kushner já em Moscou para ouvir Vladimir Putin —, o discurso de Davos antecipa um momento tenso para os líderes europeus. Zelensky critica ainda a autocensura estratégica: ordens informais para não mencionar mísseis Tomahawk ou Taurus para não “estragar o humor” dos americanos, e uma predisposição à inércia que ele compara a uma “modalidade Groenlândia”.
Como analista que acompanha a tectônica de poder entre Europa, Estados Unidos e Rússia, observo que o pronunciamento de Zelensky é um movimento calculado no tabuleiro diplomático: expor fragilidades alheias para forçar decisões e redefinir prioridades. É um gesto que visa criar pressão pública e política sobre as capitais europeias, obrigando-as a escolher entre a coesão estratégica e a continuidade do statu quo.
O desafio para a Europa é, portanto, sustentável: transformar retórica em sanções eficazes, instituições jurídicas robustas e garantias materiais que alterem o equilíbrio — ou aceitar que seus alicerces diplomáticos continuarão frágeis diante de um adversário que redobra esforços. Em termos práticos, as conversas nos Emirados e a missão de Witkoff e Kushner a Moscou revelarão se há margem para um redesenho das linhas de influência ou apenas mais um retorno ao mesmo capítulo repetido.






















