Bruxelas — Em um movimento que reforça a estratégia de externalização das fronteiras europeias, a União Europeia entregou nesta quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, um novo conjunto de equipamentos destinados à busca e salvamento às autoridades tunisinas. O pacote soma-se a um financiamento que já totaliza cerca de 130 milhões de euros desde 2015, destinado à modernização das capacidades marítimas e de segurança da Tunísia.
Segundo a delegação da UE presente em Túnis, os materiais — que serão entregues à Guarda Costeira tunisina e à Guarda Nacional (força de polícia de caráter paramilitar) — destinam-se exclusivamente a “atividades ligadas à segurança, à busca e ao resgate”. Na retórica diplomática, trata-se de reforçar a capacidade de resposta humanitária e a proteção das rotas marítimas entre a África e a Europa.
No entanto, o gesto ocorre num contexto sensível: a Tunísia tem sido alvo de sérias acusações de envolvimento com traficantes e de práticas de violência no mar. Organizações não governamentais e relatórios, entre os quais os da Amnesty International, documentaram episódios de legalidade duvidosa durante operações de “resgate e recuperação”. As críticas apontam para um contraste entre os equipamentos entregues e os mecanismos de responsabilização por possíveis abusos.
Em Bruxelas, os emissários europeus celebraram o que definiram como resultados tangíveis: redução das travessias irregulares e do número de desaparecidos e vítimas em alto-mar. A União atribui esses indicadores ao aumento das operações de salvamento e vigilância costeira. As ONGs, contudo, advertiram que tais dados são insuficientes sem garantia de monitoramento independente sobre o tratamento dispensado aos migrantes em solo tunisino. Estimativas da Amnesty apontam que, entre junho de 2023 e maio de 2025, cerca de 11.500 pessoas teriam sido expulsas forçosamente para a Líbia ou a Argélia.
Desde o início de 2026, a cooperação entrou na sua terceira fase, prevista até 2028. O plano prevê a implantação de infraestruturas avançadas de vigilância radar para consolidar as capacidades tunisinas de proteção costeira — um passo que, na prática, estabiliza a política de externalização das fronteiras europeias, transferindo para fora do território da UE parte do esforço de controle migratório.
Como analista, vejo neste movimento um padrão estratégico: a União Europeia fortalece um aliado-chave na margem sul do Mediterrâneo, ao mesmo tempo em que assume o risco político de dependência sobre instituições cujas garantias de respeito aos direitos humanos são contestadas. É um lance no tabuleiro onde o objetivo imediato — reduzir chegadas irregulares e salvar vidas no mar — convive com alicerces frágeis da diplomacia e lacunas na governança interna tunisina.
O reforço tecnológico e logístico transforma o litoral tunisino num ponto de controle cada vez mais capacitado, mas também redesenha, de forma invisível, linhas de fronteira e responsabilidades. Sem mecanismos robustos de fiscalização independente e de salvaguarda dos direitos, os equipamentos podem tornar-se tanto instrumentos de salvação quanto de exclusão.
Marco Severini
Espresso Italia — Análise de estratégia e geopolítica






















