Bruxelas – A União Europeia reaprendeu, num movimento que lembra uma jogada decisiva no tabuleiro, que a união faz a força. Foi esse o espírito que presidiu ao **cimeira extraordinária** dos líderes europeus convocada para calibrar a resposta ao segundo mandato de Donald Trump na Casa Branca.
O encontro reuniu os chefes de Estado e de Governo dos Vinte e Sete em Bruxelas numa demonstração de coesão — ainda que frágil e a exigir consolidação — alimentada pelo receio comum face a um parceiro transatlântico imprevisível. O recuo americano sobre a intenção de aquisição da Groenlândia e as idas e vindas sobre tarifas e comércio contribuíram para uma renovada consciência da força europeia quando esta atua de forma concertada.
Vários líderes realçaram essa mensagem à chegada: França, Alemanha, Grécia, Irlanda, Polônia, Lituânia e a Letónia foram entre os Estados que sublinharam a importância de permanecerem compactos. O primeiro‑ministro finlandês, Petteri Orpo, sintetizou assim o imperativo do dia: “Demonstramos que, se permanecermos unidos, somos fortes; e se somos fortes, somos respeitados.” Um aforismo de Realpolitik que, traduzido no espaço diplomático, vale respeito e margem de manobra.
O presidente francês, Emmanuel Macron, foi claro quanto à desconfiança que ainda marca as relações: “Reunimo‑nos para demonstrar que a Europa está unida em apoiar a Dinamarca”, disse, referindo‑se à recente tensão em torno da Groenlândia. Acrescentou, numa nota de cautela, que “A situação está agora mais suportável, mas permanecemos vigilantes” — um diagnóstico que revela o drama da dependência estratégica e a necessidade de ganhar autonomia de decisão.
Na Letónia, país tradicionalmente pró‑atlântico, a primeira‑ministra Evika Siliņa não se esquivou à franqueza: “É preciso trabalhar com o que se tem. Os cidadãos americanos elegeram seu presidente; na Europa temos os nossos.” A frase evidencia um clima de insatisfação — mais pragmático do que ideológico — perante um aliado cuja conduta perturba a previsibilidade diplomática.
Do lado da Polônia, Donald Tusk traçou uma distinção civilizada e política: “Há diferença entre dominação e liderança”, lembrando que “A coerção não é a essência da política.” Palavras que soam como uma advertência aos métodos de pressão externa. O chanceler alemão, Friedrich Merz, preferiu não alongar‑se sobre episódios recentes — “Não quero comentar os acontecimentos da última semana” —, mas reconheceu que “é agora claro que a unidade e a determinação europeias podem realmente fazer a diferença.”
É com este espírito de cautelosa determinação que os Vinte e Sete abriram o cimeira extraordinária. Mais do que a forma específica das medidas em discussão, o que se tornou extraordinário foi a reintrodução, no cerne da diplomacia europeia, de uma consciência política mais densa: a da Europa como actor coletivo capaz de estabelecer alicerces próprios para a sua segurança e posição global.
Da perspectiva analítica, trata‑se de um pequeno redesenho das fronteiras invisíveis do poder: não se trata de romper laços atlânticos, mas de reposicionar peças para reduzir a exposição a movimentos imprevisíveis do principal aliado. Em linguagem de cartografia estratégica, a UE parece começar a traçar corredores de autonomia que lhe permitam negociar com mais solidez e menos sujeitos a choques externos.
O encontro em Bruxelas, portanto, foi menos um acto de desafio e mais uma reafirmação de soberania colectiva — um gesto de diplomacia prática que visa preservar a estabilidade europeia num momento de tectónica de poder acelerada. Resta agora transformá‑lo em políticas concretas e duradouras, porque no tabuleiro internacional a credibilidade exige tanto palavras medidas quanto movimentos concretos.






















