Por Chiara Lombardi — Emissária de cultura pop e olhar crítico da Espresso Italia
O centro de gravidade do novo biopic sobre Franco Battiato é, como um bom roteiro reflexivo, um percurso íntimo: de quando o cantor frequentava a escola primária até a criação de La cura (1996). Em Il lungo viaggio, dirigido por Renato De Maria, essa linha temporal se interrompe cinco anos antes da morte do artista, ocorrida em 2021 em sua casa de Milo, às sombras do Etna — e é nesse território originário que se desenrola a cena final do filme.
O protagonista é Dario Aita, visto anteriormente em Partenope. A escolha do ator não é apenas física: timbre, gestos e olhar se alinham em uma semelhança que causa estranhamento pelo realismo. De Maria define o projeto como “o relato de uma viagem interior do jovem Battiato, da Sicília a Milão, até o retorno às raízes”. É uma bio-cinematografia que se propõe menos a inventariar fatos e mais a mapear a formação de um espírito artístico.
Para compor esse retrato, a equipe consultou entrevistas, livros e videoclipes do cantor. O filme mostra as primeiras experimentações sonoras e os choques com discográficas que diziam “nós produzimos canções, não tratados de filosofia”, e segue até o assento de Battiato na cultura pop. Passagens-chave incluem encontros criativos com Giusto Pio e Ballista; escolhas editoriais deixaram de fora figuras como Manlio Sgalambro e algumas das canções de denúncia.
Os diálogos nascem de frases realmente proferidas por Franco Battiato, e a trilha sonora é matéria viva do longa: uma cosmogonia sonora que atravessa Oriente e Ocidente, do barroco de Telemann ao sintetizador, dos Lieder de Brahms cantados por ele na Sala Santa Cecilia até o imaginário místico do “cinghiale bianco”, do esoterismo de Gurdjieff às danças dos dervixes. O resultado é uma espécie de hipnose estética — uma malía entre vertigem e contemplação que funciona como espelho do nosso tempo.
O filme também investiga o universo familiar: um pai ausente, descrito como mulherengo, e uma mãe central — interpretada pela atriz Simona Malato — cuja presença atravessa a narrativa. O projeto surgiu por iniciativa da produtora Francesca Chiappetta, amiga histórica de Battiato, e avançou após encontros com Cristina Battiato, sobrinha e herdeira universal do artista.
Curiosamente, o verdadeiro Franco Battiato não aparece em cena — uma escolha estética e ética, segundo a equipe: colocá-lo no filme seria “quebrar um pacto” com o espectador. Em momentos de entrevistas televisivas reproduzidas no longa, como a conduzida por Mario Luzzatto Fegiz, o rosto real é interpolado ao do ator. Há também uma sequência notável com Pippo Baudo, onde o apresentador parece tratar Battiato como um autor em início de carreira, apesar de já ter publicado quinze álbuns — uma cena que evidencia o descompasso entre percepção pública e trajetória efetiva do músico. O próprio Battiato, paciente e introspectivo, tomava os seus tempos para responder, resistindo aos rótulos fáceis.
Il lungo viaggio estreia como evento de distribuição pela Nexo entre 2 e 4 de fevereiro e seguirá para exibição na Raiuno logo após o Festival de Sanremo. É, em suma, uma tentativa cinematográfica de condensar uma criatura artística onívora: um homem em trânsito entre tradições, crenças e contradições, sempre fiel à prática da meditação e à busca de uma religiosidade que não se submeta a dogmas. Ver o filme é aceitar um reframe da realidade do artista — e, por extensão, repensar o roteiro oculto que a música e a memória escrevem sobre nós.






















