Por Chiara Lombardi — Regista, ator, roteirista e produtor, Francesco Apolloni é um autor cujo trabalho se confunde com a vida. O êxito de ‘L’appartamento sold out’ na RaiPlay confirmou isso: uma série que consegue traduzir temas como integração, convivência e transformação sem sentimentalismos fáceis, mas com ironia e veracidade. Em conversa comigo, ele falou sobre esse resultado, seu método, o compromisso social das suas escolhas e sobre por que volta sempre ao mesmo cenário — a cidade de Roma.
Apolloni admite que a dimensão do retorno foi maior do que esperavam: mais de quatro milhões de visualizações e presença constante por mais de um mês na Top Ten. Mas, para ele, o fenômeno tem uma explicação simples e profunda: o boca a boca gerado por uma história onde o público se reconhece. ‘L’appartamento sold out’ não evita o conflito nem o romantiza; prefere a comédia dramática, o dramedy, para mostrar uma Itália já existente nas ruas, feita de encontros cotidianos, mal-entendidos e ternura inesperada.
Um aspecto que Apolloni defende com firmeza é a busca pela autenticidade: os atores estrangeiros são realmente estrangeiros e, quando juntos, falam a sua língua. É raro ver numa ficção italiana personagens árabes falando árabe sem tradução estética — e essa opção, inicialmente temida por alguns, acabou se tornando uma das forças da série. A honestidade linguística constrói um espelho cultural mais fiel; é o roteiro oculto da sociedade se revelando em pequenos gestos e sotaques.
Sobre a possibilidade de continuidade, a equipe já escreveu um sujeito para uma segunda temporada. A RaiPlay funciona como campo de experimentação: quando um formato dá certo, o impulso natural é querer ir adiante. Ainda assim, Apolloni lembra que sucesso de audiência não significa necessariamente recompensa econômica proporcional. Uma anedota: um amigo americano, ao ver os números, brincou que agora ele estaria rico. Apolloni sorri e observa a diferença estrutural: na Itália é mais difícil proteger e valorizar financeiramente os criadores — os franceses, por exemplo, têm uma cultura de defesa e orgulho de seus produtos que nós poderíamos emular.
Apolloni evoca até Pirandello para provocar reflexão: “Vattene da questo Paese che non ama i propri talenti”. É uma provocação que toca a ferida da indústria cultural italiana e convida a pensar como a produção audiovisual pode ser uma forma de memória coletiva e revalorização cultural, além de entretenimento.
Por fim, a cidade. Roma não é apenas pano de fundo; é personagem. Está nas veias da escrita, na observação das paisagens humanas e nos pequenos detalhes que definem o tom das cenas. Para Apolloni, seria impossível fazer esses filmes em outro lugar: Roma fascina e cansa, seduz e corrige — um cenário de transformação que alimenta as suas histórias.
Como analista cultural, vejo em ‘L’appartamento sold out’ algo além da narrativa: um reframe da realidade que mostra como a ficção pode ser espelho do nosso tempo. Ao escolher a autenticidade — línguas, vizinhança, contradições — Apolloni assina um trabalho que é, ao mesmo tempo, exercício estético e compromisso civil. O resultado? Uma série que ecoa culturalmente e abre espaços para novas perguntas sobre identidade, memória e convivência.





















