Por Marco Severini — Em um momento em que a máquina política e simbólica de Donald Trump movimenta peças de alcance global — desde ambições externas que soam surrealmente expansionistas até a transformação do ICE em algo próximo a uma guarda de caráter pessoal — surge, nas ruas e nas instituições locais dos Estados Unidos, uma resposta que exige leitura estratégica. É essa a leitura proposta pelo novo número da revista MillenniuM, cujo título de capa, “Bandiera rossa alla Casa bianca”, não é apenas provocação retórica, mas sinal de um movimento tectônico de poder em formação.
O exemplar, disponível a partir de sexta-feira, 23 de janeiro, reúne um conjunto de reportagens e imagens que mapeiam a chamada onda rossa americana: o surgimento de figuras como Zohran Mamdani, o prefeito socialista de Nova York; a eleição de outra socialista, Katie Wilson, à frente de Seattle; e a emergência de movimentos de rua e sindicais que tensionam a ordem estabelecida — do No King às propostas ousadas de Shawn Fain, líder do UAW, que trouxe à cena a ideia de um greve geral, algo quase desconhecido no calendário laboral norte-americano.
No plano visual e investigativo, o número traz um reportagens sobre os abusos do ICE nos tribunais de imigração de Nova York, assinada por Nicolò Filippo Rosso, que documenta como dispositivos públicos podem ser instrumentalizados contra direitos básicos. Paralelamente, Salvatore Cannavò — jornalista do Il Fatto Quotidiano e editor italiano da revista Jacobin — traça, nome por nome, a cronologia e os protagonistas desse novo socialismo americano.
Para entender as raízes desse impulso, a revista contrapõe imagens e dados: um ensaio fotográfico de Matt Black, da Magnum, sobre a pobreza endêmica; uma infografia que lista os 69 bilionários mais ricos dos EUA — liderados por Elon Musk com um patrimônio estimado em 428 bilhões — cuja riqueza agregada equivale, em termos comparativos, à metade mais pobre da população estadunidense, cerca de 171 milhões de pessoas. Essa cartografia da desigualdade explica, em grande medida, a energia social que alimenta a onda rossa.
A análise histórica, assinada por Roberto Festa, recupera como partidos e sindicatos de esquerda atuam no país desde os anos 1920, gerando reações que antecederam mesmo o maccartismo — um lembrete de que a história política americana é um tabuleiro com movimentos recorrentes e respostas previsíveis ao que se percebe como “perigo vermelho”. A galeria de fotos amplia o panorama: de Seattle a Occupy Wall Street, de Black Lives Matter às praças onde se concentra a contestação contemporânea.
O número também reserva espaço à cultura e às memórias: um ensaio sobre a relação ambivalente dos italianos com a América — passando por Alberto Sordi, Vasco Rossi e pelas tentativas cinematográficas de Benigni e Troisi em Non ci resta che piangere — e uma entrevista de Gabriele Micciché com o fotógrafo Edo Bertoglio, que revive os anos de Basquiat e Keith Haring em uma Nova York de extremos criativos e sociais.
Por fim, duas peças curatoriais oferecem alívios críticos: o projeto provocador de Max Papeschi e Arianna Bonucci, “Eau de eau”, que atravessou os EUA confrontando fast food, consumo descartável e a economia da água engarrafada; e outras colaborações que completam um número pensado como um mapa multifacetado da resistência. Quem observa o tabuleiro global com calma percebe aqui um movimento que não é mero ruído: é um redesenho de fronteiras invisíveis entre poder econômico, protagonismo local e contestação organizada.
Se a Casa Branca acena com bandeiras e gestos autoritários, do lado de fora — e dentro de prefeituras, sindicatos e praças — surge uma resposta coordenada, muitas vezes local, mas de potencial sistêmico. É uma jogada em múltiplos tabuleiros: nem sempre visível ao primeiro olhar, porém capaz de alterar, com o tempo, os alicerces frágeis da diplomacia doméstica e as linhas de influência que estruturam a política norte-americana.
O novo MillenniuM é, portanto, mais do que uma leitura; é uma cartografia estratégica da onda rossa que resiste a Trump, adequada a quem busca compreender os movimentos que podem reequilibrar forças em um dos centros decisivos do sistema global.






















