Por Chiara Lombardi — Em um momento em que o cinema volta a se apresentar como arquivo de memória e como espelho do nosso tempo, A voz de Hind Rajab foi oficialmente incluída entre os cinco indicados ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Filme Internacional. A obra da diretora tunisiana Kaouther ben Hania chega a Los Angeles com o peso de uma denúncia estética e moral, depois de arrepiar o público de Veneza e conquistar o Grande Prêmio do Júri.
Exibido em Veneza com uma reação que parecia prolongar a própria tomada final de uma cena, o filme recebeu uma ovação de 24 minutos — um gesto que virou notícia não apenas pela duração, mas pela intensidade do silêncio que sucedeu os aplausos. Não é apenas o cinema que celebra ali; é a recusa coletiva de virar a face diante do sofrimento que se torna cifra política.
A voz de Hind Rajab reconta, com despojada brutalidade narrativa, a história de uma menina de seis anos que perde a vida em Gaza. O filme não pretende se limitar a um relato jornalístico: transforma o acontecimento em símbolo e memória, rastreando como a experiência traumática de uma criança pode se tornar o roteiro oculto da nossa compreensão coletiva sobre a guerra. É cena e análise: imagens que ferem e perguntas que permanecem.
A tragédia descrita no filme tem uma data precisa: em 29 de janeiro de 2024, o bairro onde vivia Hind, em Gaza City, foi atingido por ataques. Uma tentativa de fuga por parte da família terminou de forma horrível quando o veículo foi interceptado por blindados e fuzileiros; a menina morreu em meio à balbúrdia de tiros, e o corpo foi deixado em meio ao caos, enquanto apelos por socorro — inclusive à Meia-Lua Vermelha — não chegaram a tempo. A narrativa cinematográfica transforma esse acontecimento em um grito que busca ser escutado além das manchetes.
Ao mesmo tempo em que funciona como ato de denúncia, o filme de Kaouther ben Hania é um veículo emocional poderoso: recupera a humanidade por trás dos números, devolve nomes a estatísticas e lança luz sobre a indiferença internacional que muitas vezes age como coadjuvante silencioso do conflito. A voz que o título evoca é tanto a voz de Hind quanto o pulso coletivo que insiste em recordar.
Na lista dos indicados ao Oscar, A voz de Hind Rajab compete com outros títulos estrangeiros que também traduzem olhares diversos sobre trauma, culpa e memória: Agente Secreto, Um Simples Acidente, Sentimental Value e Sirât. A nomeação consolida a noção de que, em algumas ocasiões, o cinema pode ser a forma mais elevada de resistência cultural — capaz de transformar luto em arte e denúncia em memória.
Enquanto nos aproximamos da cerimônia de 15 de março, a presença do filme entre os finalistas nos convida a um exercício de responsabilidade estética: assistir não só com os olhos, mas com a consciência histórica, entendendo que cada longa é um espelho do presente e um arquivo para o futuro. Em seu itinerário de festival até a indicação ao Oscar, A voz de Hind Rajab reafirma o papel do cinema como testemunha e intérprete do tempo.






















