Em mais um capítulo daquilo que já parece uma arquitetura repetitiva de acusações, surgem fotos que desmontam uma narrativa construída a base de manchetes e suposições. Matteo Salvini e Maurizio Gasparri aparecem sorridentes ao lado de Sulaiman Hijazi, o ativista palestino que figura no inquérito da Procura de Gênova sobre a origem de fundos ligados a Hannoun e que vem sendo associado pela imprensa e por parte do espectro político como elemento de uma suposta rede de apoio a Hamas.
O mecanismo retórico, repetido até tornar-se espuma, é simples: se você aparece numa foto com Hijazi, automaticamente seria “amigo de Hamas”. Se participa de um evento onde ele está, entra-se na tal “rede italiana filo-Hamas”. Um selfie transforma-se em prova incontestável, sem distinção entre encontro casual e relação estruturada — como se a fotografia tivesse o peso da caneta que assina uma sentença.
Essa lógica já atingiu figuras de campos políticos distintos: Giuseppe Conte foi alvo de notícias e interpelações; Stefania Ascari, Alessandro Di Battista, Angelo Bonelli e mesmo autoridades do Partito Democratico sofreram a mesma exposição pública por terem sido vistos em fotos ou eventos com Hijazi. Um exemplo emblemático foi o caso de Francesca Albanese, cujo simples registro fotográfico na Câmara foi transformado em acusação pública.
As reconstruções jornalísticas citam uma interceptação na qual Hijazi — segundo os relatórios — admitiria que parte dos recursos recolhidos acabariam nas mãos de grupos como o Hamas. A partir dessa peça, porém, o salto lógico que transforma convicções visuais em culpa política é automático e perigoso: contiguidade visual iguala-se a contiguidade política. Não se faz distinção entre presença pública e conivência, e a fotografia vira, em alguns corredores midiáticos, prova e sentença simultaneamente.
Esse movimento produziu efeitos institucionais. O deputado de Fratelli d’Italia Federico Mollicone apresentou uma interrogazione para esclarecer as “frequentazioni” do líder do M5S e de seus parlamentares, exigindo explicações imediatas aos cidadãos. A resposta pública esperada — o alicerce do diálogo democrático — tem sido substituída por exigências performativas de distanciamento, que priorizam o espetáculo à investigação.
Agora, aplicando o mesmo critério de suspeição por proximidade fotográfica, a lista de “comprometidos” aumenta e surpreende: o próprio Il Fatto Quotidiano trouxe à tona imagens de 2021, 2022 e 2023 em que Gasparri e Salvini aparecem ao lado de Hijazi. Dois dos mais vocais críticos da suposta rede passam a integrar, pelo mesmo padrão que eles próprios incentivaram, o rol dos que precisam se explicar.
Não se trata aqui de relativizar investigações legítimas ou de minimizar possíveis responsabilidades — a Procura de Gênova segue suas apurações —, mas de apontar a falta de critério quando a imprensa e atores políticos transformam a imagem em júri. A construção de direitos e deveres públicos exige separar indício de condenação: confundir fotografia com prova é derrubar alicerces da présunção de inocência e erigir muros onde deveria haver pontes de esclarecimento.
Enquanto as luzes do debate público iluminam rostos e selfies, resta perguntar: qual será o critério que aplica-se agora? Se a regra for a presença junto a uma mesma pessoa, então a paisagem política italiana corre o risco de ver-se redesenhada por fotografias, e não por fatos, investigações e instrumentos jurídicos. A política, que deveria construir pontes entre nações e cidadãos, não pode se reduzir a um catálogo de imagens condenatórias.
Como repórter e cidadão, sigo acompanhando o desenvolvimento do inquérito e a reação das forças políticas. A vigilância é a argamassa que une informação confiável ao direito público; sem ela, a narrativa se esfarela e a cidadania perde parte de sua solidez.






















