Um estudo australiano publicado em dezembro de 2025 na revista eBioMedicine e liderado pelo doutor Kevin J. Selva, do Peter Doherty Institute da Universidade de Melbourne, reacende um debate cuidadoso sobre os efeitos imunológicos de longo prazo das vacinas contra a Covid-19. Intitulado ‘Elevated SARS-CoV-2 IgG4 in plasma and mucosa following repeated mRNA boosters impact antibody functions to Omicron and sarbecoviruses’, o trabalho investiga a relação entre o número de doses de reforço recebidas e a resposta imune do organismo.
Os cientistas observaram que reforços repetidos, especialmente aqueles com tecnologia mRNA (como as vacinas da Pfizer e Moderna), estão associados a um aumento significativo dos anticorpos IgG4 dirigidos à proteína Spike, tanto no plasma quanto nas mucosas. As imunoglobulinas IgG4 têm um papel conhecido como mais ‘regulador’: ajudam a reduzir a inflamação, mas não neutralizam os vírus com a mesma eficácia das subclasses de anticorpos mais protetoras.
Na prática, explicam os autores, esse deslocamento na paisagem de anticorpos pode favorecer um quadro de maior tolerância imunológica. Em linguagem mais cotidiana: com múltiplos reforços, o sistema imune pode passar a reconhecer alguns componentes do vírus de forma menos agressiva, respondendo de modo menos efetivo quando confrontado com a infecção ativa. O estudo analisou participantes que receberam até quatro doses, observando a elevação de IgG4 após repetidos boosters.
É importante frisar a sacada de cautela: os pesquisadores não declaram que as vacinas sejam prejudiciais em termos absolutos. Em vez disso, mapeiam uma mudança na qualidade da resposta imune que merece investigação adicional. O debate científico dos últimos anos vem se expandindo justamente para entender esses efeitos imunes de longo prazo e como equilibrar proteção imediata e memória imunológica sustentável.
Como um observador atento ao cotidiano e ao bem-estar, penso nisso como uma colheita: cada dose é uma estação que molda o terreno imunológico. Algumas estações trazem frutos benéficos no curto prazo; outras, se repetidas sem pausas, podem alterar a composição do solo. A mensagem não é alarmista, mas conservadora e atenta — sinalizando que a saúde coletiva pede entendimento profundo dos ciclos imunológicos.
O trabalho australiano dialoga com estudos de outros centros. Pesquisadores do Japão, por exemplo, levantaram perguntas sobre variações nos níveis de anticorpos em grandes coortes, o que reforça a necessidade de monitoramento contínuo e de ensaios que avaliem diferentes esquemas e intervalos de reforço.
Para o público: manter diálogo com profissionais de saúde, acompanhar recomendações atualizadas e considerar o contexto individual (idade, comorbidades, exposição) continuam sendo atitudes sensatas. E para a comunidade científica: o estudo é um lembrete de que as respostas imunes são paisagens dinâmicas, onde cada intervenção semeia consequências que precisam ser observadas ao longo do tempo.
Em resumo, a pesquisa conduzida por Kevin J. Selva e equipe sugere que repetidos boosters com plataformas mRNA elevam os níveis de IgG4 contra a proteína Spike, o que pode, em alguns contextos, reduzir a capacidade de o organismo combater infecções de forma imediata. O convite é para a prudência informada: mais dados, mais tempo e uma leitura sensível dos ciclos que governam nossa imunidade.
Referência: Selva K. J. et al., ‘Elevated SARS-CoV-2 IgG4 in plasma and mucosa following repeated mRNA boosters impact antibody functions to Omicron and sarbecoviruses’, eBioMedicine, dezembro de 2025.






















