Bruxelas — Em mais um movimento decisivo no tabuleiro político europeu, o Parlamento Europeu rejeitou a moção de censura apresentada contra a Comissão Europeia e a sua presidente, Ursula von der Leyen. Pela quarta vez no atual mandato, o Hemiciclo manteve a confiança no Executivo comunitário: 165 deputados votaram a favor da moção, 390 contra e 10 abstiveram-se.
A iniciativa, encabeçada por um grupo parlamentar de matriz soberanista e eurocética — no qual se inclui a italiana Lega —, tinha por foco principal o controverso acordo comercial entre a União Europeia e os países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). O resultado final já era esperado: os grandes grupos pro-europeus e as formações de governo manifestaram desde cedo a intenção de não apoiar a iniciativa.
Do ponto de vista substantivo, a crítica central referia-se ao processo e às implicações do acordo UE‑Mercosul. Para a presidente da Comissão, a verdadeira incógnita continua a ser o pedido de pronúncia sobre a matéria feito à Corte de Justiça da UE, que deverá verificar a compatibilidade jurídica do texto com o ordenamento comunitário antes de eventuais passos finais.
Na sessão, deputados críticos alertaram para riscos ambientais e cláusulas insuficientes em matérias como desmatamento e normas sanitárias; defensores do executivo lembraram os benefícios geoestratégicos e económicos de um acordo que amplia o alcance comercial europeu na América do Sul. A votação de hoje confirma, contudo, que a maioria parlamentar prefere encaminhar dúvidas jurídicas às instâncias competentes, preservando assim os alicerces institucionais da União.
Como analista que segue a tectônica de poder em Bruxelas, observo que este episódio revela duas verdades estruturais: primeiro, a persistente tendência de forças soberanistas em usar moções políticas como peça de pressão pública; segundo, a resiliência institucional dos grandes grupos pró-europeus em defender o princípio da governabilidade comunitária diante de crises episódicas.
O caso do Mercosul é, em última análise, um exemplo de redesenho de fronteiras invisíveis — não de territórios, mas de normas e cadeias de influência econômica. Remeter o acordo à Corte de Justiça da UE é, portanto, um movimento estratégico que visa tanto legitimar o processo quanto deslocar o confronto para um foro técnico-jurídico, menos sujeito à volatilidade das sessões plenárias.
Para a presidente Ursula von der Leyen, a série de votos de confiança funciona como um reforço pragmático: não elimina as críticas, mas permite à Comissão ganhar tempo político e jurídico. Em termos de estabilidade, é um lance conservador e calculado — um bispo que protege o rei enquanto o jogo de circunstâncias se reorganiza.
Permanece o monitoramento atento das próximas etapas: o encaminhamento do acordo ao tribunal comunitário, as possíveis emendas políticas e a reação dos governos nacionais. No tabuleiro institucional europeu, cada movimento importa; e hoje, a jogada foi a manutenção da confiança na Comissão.






















