Bruxelas — O adiamento do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosur demonstrou com clareza o novo desenho das linhas de força econômicas no tabuleiro europeu. A decisão do Parlamento Europeu de remeter o texto à Corte de Justiça da UE não é apenas um atrito entre grupos políticos: é uma fratura nítida entre o setor primário e o secundário. Enquanto o mundo agrícola celebra, a indústria recebe o movimento com consternação e advertência estratégica.
Na perspectiva das grandes federações industriais, o gesto parlamentar é motivo de inquietação. Markus J. Beyrer, diretor-geral da BusinessEurope, qualificou o episódio como um sintoma de «ausência coletiva de responsabilidade». Para Beyrer, trata‑se de um «acordo histórico» que fortalece a posição externa da UE. A preocupação é pragmática e geopolítica: segundo estimativas citadas pela associação, a não implementação do ajuste entre as duas regiões teria custado à União Europeia, entre 2021 e 2025, cerca de 183 bilhões de euros em exportações e aproximadamente 291 bilhões de euros de PIB.
Eco semelhante vem das câmaras de comércio europeias. Vladimír Dlouhý, presidente da Eurochambres, revelou frustração pelo retrocesso e pediu aos responsáveis políticos que retomem «novos acordos comerciais», começando pelo sul-americano, para restabelecer previsibilidade e reduzir o risco de perda de posições competitivas no comércio internacional.
O setor automotivo permaneceu, por ora, em silêncio público. A ACEA não divulgou comentários formais após o voto, mas havia já advertido na ocasião da assinatura: «Não podemos esperar mais» — um apelo claro à ratificação célere do pacto. Do ponto de vista industrial, o recuo parlamentar é recebido com desapontamento e sinalizações de risco para cadeias de fornecimento e investimentos.
Contrastando com essa apreensão corporativa, o universo rural celebra. As organizações agrárias europeias Copa e Cogeca interpretaram o resultado como reconhecimento das preocupações legítimas dos agricultores e da sua mobilização. Na Itália, Coldiretti, CIA e Confagricoltura alinharam-se publicamente, saudando a decisão do Parlamento como uma vitória de proteção do mercado interno e das cadeias produtivas agrícolas.
Trata‑se, em linguística de Estado, de um movimento que redesenha fronteiras invisíveis: a política comercial torna-se campo de batalha entre interesses setoriais que têm visões antagônicas sobre abertura e regulação. Para os industriais, o acordo seria um movimento estratégico para consolidar posições no exterior; para os agricultores, um risco direto aos alicerces da produção local e à manutenção de padrões sanitários e ambientais.
Como analista, observo que este episódio tem significado além das contas econômicas: é um teste à capacidade da União de conciliar objetivos de mercado com sensibilidades sociais e ambientais, sem perder a coerência geopolítica. Enviar o texto à Corte de Justiça equivale a jogar uma peça decisiva no tabuleiro jurídico, uma jogada prudente para ganhar tempo e, possivelmente, reconfigurar compromissos futuros.
Os próximos movimentos serão cruciais. A ratificação permanece condicionada a avaliações jurídicas e políticas que poderão redefinir não só o conteúdo do acordo, mas também o ritmo das relações UE‑Mercosur. No centro dessa tectônica de poder estão interesses concretos — exportadores, industriais, agricultores — cujo equilíbrio determinará o valor estratégico do pacto para a União Europeia nos próximos anos.
Eu, Marco Severini, acompanho este desenvolvimento com a serenidade de quem pensa em termos de longas estratégias: a estabilidade das relações comerciais exige decisões calibradas, que preservem ao mesmo tempo coerência externa e coesão interna.






















