Donald Trump presidiu a cerimônia de assinatura do Board para Gaza, marcando um movimento de alto simbolismo na geopolítica regional. O anúncio do elenco inicial de participantes revela tanto a construção de um novo eixo de influência quanto a fragilidade dos alicerces diplomáticos que sustentam iniciativas multilaterais sobre Gaza.
Na lista de nações que já aceitaram integrar o Board para Gaza estão: Argentina, Armênia, Azerbaijão, Bahrein, Bielorrússia, Egito, Hungria, Indonésia, Jordânia, Cazaquistão, Kosovo, Marrocos, Paquistão, Catar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos, Uzbequistão e Vietnã. Este conjunto revela a composição de um bloco heterogêneo: estados do Médio Oriente, atores euroasiáticos e potências regionais da Ásia e da África, que respondem a diferentes incentivos estratégicos e interesses domésticos.
Por outro lado, foram publicamente anunciados como não aderentes, ao menos por ora: França, Noruega, Eslovênia, Suécia e Reino Unido. A ausência desses atores — tradicionais promotores de normas multilaterais — sinaliza uma dissociação entre a iniciativa do Board para Gaza e mecanismos estabelecidos da diplomacia ocidental.
Há, ainda, um grupo considerável de convidados que ainda não confirmaram sua participação: Cambodja, China, Croácia, Alemanha, Índia, Itália, o executivo da União Europeia, Paraguai, Rússia, Singapura, Tailândia e Ucrânia. A pendência dessas adesões torna o desfecho do movimento diplomático incerto, transformando-o em um verdadeiro jogo posicional no tabuleiro internacional.
Enquanto analista, observo três vetores estratégicos que explicam as escolhas nacionais:
- Interesses regionais e de segurança: países vizinhos e atores com influência no Médio Oriente tendem a participar para preservar canais de diálogo e garantir presença nas decisões que afetarão a estabilidade regional.
- Alinhamentos políticos e reputacionais: democracias ocidentais tradicionais mostram reticência, possivelmente por divergências sobre legitimidade, mandato e objetivos do Board para Gaza.
- Oportunismo diplomático: potências emergentes podem ver na adesão uma oportunidade de ampliar seu peso internacional sem um custo direto em confrontos convencionais.
Em termos de realpolitik, esta iniciativa representa um movimento decisivo no tabuleiro: a criação de fóruns paralelos redefinirá, de modo sutil, as linhas de influência sobre a reconstrução e o futuro político de Gaza. A presença de países árabes e muçulmanos ao lado de Estados euroasiáticos sugere um redesenho de fronteiras invisíveis na diplomacia — um processo que exigirá tempo para consolidar legitimidade e eficácia.
Para os diplomatas e decisores, o desafio será transformar assinaturas em resultados concretos: mecanismos de financiamento, garantias de segurança e coordenação humanitária. Sem esses elementos, o Board para Gaza corre o risco de ser mais um movimento simbólico do que uma plataforma capaz de alterar a tectônica de poder sobre o terreno.
Concluo, com moderação estratégica: a assinatura abriu uma nova fase, mas o verdadeiro teste será a adesão dos indecisos e a capacidade do fórum em traduzir intenções em políticas verificáveis. No xadrez da diplomacia, nem sempre a cerimônia inicial é o xeque-mate; muitas vezes é apenas a preparação para as próximas jogadas.






















