Por Marco Severini — A arquitetura criada para a estabilização da Faixa de Gaza ganhou, nas últimas semanas, um novo ator e uma configuração que redesenha, de forma sutil, e por vezes contundente, linhas de poder globais. Trata-se do Board of Peace — apresentado como Conselho de Paz — cuja composição e regras internas provocaram reações diplomáticas em vários polos do sistema internacional.
Segundo os acordos de Sharm el-Sheikh, que em outubro de 2025 puseram fim a dois anos de conflito na Faixa de Gaza, caberia a esse organismo supervisionar a reconstrução e a estabilização da região. No entanto, a lista de convidados, extinta para apenas uma cúpula técnica, foi ampliada: o presidente americano Donald Trump convidou 59 líderes, incluindo chefes de Estado de países árabes, a Turquia, potências emergentes e tradicionais. Estão nela, entre outros, Vladimir Putin, Aleksander Lukashenko, Narendra Modi, Luiz Inácio Lula da Silva, Javier Milei, Recep Tayyip Erdogan, Abdel Fattah al-Sisi e o rei Abdullah II, além de representantes de Estados distantes como Paraguai e Paquistão.
O desenho provocou incômodo. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu manifestou desagrado público, especialmente pela presença da Turquia. O presidente francês Emmanuel Macron recusou o convite em sinal de protesto — fato que motivou, segundo relatos, ameaças de tarifas punitivas por parte de Washington sobre vinhos e champanhes franceses. Paris, por sua vez, advertiu que um organismo tão amplo e ambicioso levanta questões fundamentais sobre o lugar e o respeito à ONU e às estruturas multilaterais consolidadas.
Um diplomata americano resumiu a ambição: “o Conselho de Paz não será limitado a Gaza. É um Board of Peace para o mundo”. Esse objetivo transnacional fica evidente tanto pela composição quanto pelo formato de governança. Entre os conselheiros, haverá um comitê executivo consultivo com figuras influentes da administração Trump — do secretário de Estado Marco Rubio a Jared Kushner e Steve Witkoff — além de nomes como Tony Blair, a ministra emiratina Reem Al-Hashimy e a coordenadora humanitária da ONU para Gaza, Sigrid Kaag.
O regime de decisões é, porém, o elemento mais revelador da tectônica de poder por trás do projeto: embora formalmente as deliberações sigam votação majoritária e cada país tenha direito a voto, na prática o presidente americano detém poderes quase monárquicos. Trump terá poder de veto sobre as decisões, a capacidade de nomear, suspender e remover membros e de convocar as reuniões — pelo menos uma por ano — sem as garantias de concurso multilateral que seriam esperadas em instituições com mandato planetário. Os mandatos são de três anos; a adesão permanente prevê uma contrapartida financeira simbólica e política de 1 bilhão de dólares.
Numa leitura estratégica, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro global: a criação de um fórum paralelo com ambições extra-regionais reflete uma tentativa de reconfigurar alicerces da diplomacia. Para muitos governos e para atores multilaterais, a principal preocupação é a erosão progressiva das normas e dos mecanismos de governança coletiva. Para Washington, é a oportunidade de liderar um instrumento onde a orquestração política e financeira segue sob comando centralizado.
O lançamento do Conselho de Paz está previsto para coincidir com o Fórum Econômico de Davos, e provavelmente será um teste de resistência das antigas estruturas: se será um suplemento útil à reconstrução em Gaza ou um novo eixo de influência competindo com a ONU, o tempo e as primeiras decisões – e quem as controla — dirão se estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis ou de uma operação puramente episódica.






















