Jared Kushner apresentou em Davos um ambicioso plano americano para a reconstrução da Faixa de Gaza, concebido como uma “nova Gaza” que funcione simultaneamente como motor econômico e instrumento de estabilidade regional. A proposta foi revelada após a assinatura do Board of Peace, em meio a imagens e slides que mapeavam infraestrutura estratégica — novas rodovias, um porto, um aeroporto — e projetos urbanísticos para a Cidade de Gaza e para Khan Younis, concebidas com arranha-céus e áreas comerciais com aspirações a se assemelhar a modelos do Golfo, como Dubai ou Doha.
Na apresentação, Kushner estimou que serão necessárias cerca de sessenta milhões de toneladas de entulho a remover da região, apontando a factibilidade técnica e temporal de erguer cidades em cerca de três anos que acomodem entre dois e três milhões de residentes — cronograma que espelha experiências recentes de reconstrução acelerada na região do Golfo. A mensagem combina utopia urbana e pragmatismo de engenharia: um redesenho físico que visa também redesenhar incentivos econômicos e sociais.
No núcleo do plano está, contudo, uma condição política inegociável: o desarmamento do Hamas. Kushner, integrante fundador do Conselho de Paz indicado por Donald Trump, afirmou que a nova administração pretende coordenar com um novo governo em Gaza esforços para garantir que os princípios da chamada “fase dois” sejam aplicados integralmente. Trump reforçou o ponto com linguagem direta, afirmando que, se o desarmamento não ocorrer, isso poderá significar “o fim do Hamas”.
Do ponto de vista da diplomacia estratégica — o olhar que cultivo para além das manchetes —, o projeto americano é simultaneamente um plano urbanístico e um movimento no tabuleiro de poder. A ênfase na localização, repetida por Trump com a expressão “It’s all about location”, não é apenas um jargão imobiliário: é uma leitura geoestratégica que transforma litoral, rotas de comércio e conexões logísticas em alicerces de influência. Reconstituir a trama urbana significa também redesenhar fronteiras invisíveis de acesso, circulação e controle.
Há desafios práticos e políticos consideráveis. Logística de remoção de escombros em escala industrial, financiamento que não dependa exclusivamente de capitais privados ou grupos geopolíticos, garantias de segurança e, crucialmente, mecanismos verificáveis de desarmamento. Além disso, a experiência histórica mostra que grandes projetos de reconstrução podem gerar concentração de poder econômico e dependência externa, a menos que sejam ancorados em instituições locais legitimadas.
O discurso de promessa de prosperidade — que inclui expectativas de emprego e desenvolvimento industrial — encontra eco entre necessidades reais da população, mas encontrará resistência se não vier acompanhado de participação política e proteção social. Em termos de equilíbrio regional, o plano americano procura criar um novo eixo de atratividade econômica que possa contrabalançar influências rivais na região; esse é um movimento típico de tectônica de poder: deslocamentos econômicos projetados para recompor alinhamentos estratégicos.
Como analista com a visão de um tabuleiro de xadrez, observo que a implementação desse projeto exigirá fases bem coreografadas: correlação de forças local, garantias multilaterais, capacidade técnica e, acima de tudo, um quadro de segurança que torne viável o retorno e a permanência de populações civis. A reconstrução proposta por Kushner é audaciosa; resta saber se, na prática, seus alicerces serão sólidos o bastante para sustentar não apenas tijolos e aço, mas instituições capazes de transformar esperança em estabilidade duradoura.






















