Marco Severini — Em mais um movimento que altera a tectônica de poder no tabuleiro do Oriente Médio, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump declarou à CNBC que o presidente russo Vladimir Putin teria aceitado o convite para integrar o novo Board of Peace voltado à reconstrução e governança pós-conflito em Gaza. A afirmação reacende dúvidas sobre a natureza e a legitimidade do projeto, enquanto alianças e vetos se desenham com rapidez estratégica.
Segundo Trump, a Rússia estaria pronta a destinar 1 bilhão de dólares para o Conselho de Paz, proveniente de fundos congelados nos Estados Unidos. Do lado russo, entretanto, não houve até o momento confirmação oficial do Kremlin: Moscou disse estar em fase de avaliação. A oferta, real ou retórica, indica a ambição de transformar o conselho em uma nova plataforma de influência — nas palavras do próprio tycoon, será “o novo ONU”.
O mapa de adesões segue fragmentado. Há relatos de 14 respostas favoráveis entre 52 convites enviados, enquanto outros governos ponderam a natureza do mecanismo proposto. Entre as confirmações de interesse, figura o primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu, que aceitou o convite, reforçando a presença de Tel Aviv no desenho institucional que Trump propõe. Por contraste, o Reino Unido oficializou a recusa em participar da cerimônia de assinatura do conselho.
No flanco mediterrâneo, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni posicionou-se com cautela: “Estamos abertos, disponíveis e interessados, mas há um problema de compatibilidade constitucional que nos impede de assinar amanhã”, disse. A referência à artigo 11 da Constituição italiana — que regula a disposição do país em relações internacionais — transforma a resposta em uma espera estratégica, nem sim nem não, enquanto Roma avalia como pode exercer um papel singular na região sem desvirtuar seus alicerces jurídicos.
O presidente Trump, em entrevistas, justificou a inclusão de figuras controvertidas afirmando que se busca influência e capacidade de execução: “Existem pessoas controversas, mas são pessoas que resolvem as coisas. Se eu convidasse apenas irrepreensíveis, haveria pouca gente”. A lógica é clara: centralização de poder com necessidade de aporte financeiro significativo — 1 bilhão de dólares para figurar entre os 15 membros permanentes, segundo o plano divulgado.
Enquanto isso, países como Turquia e Egito teriam sinalizado concordância com o convite, ampliando a geografia do conselho e sinalizando um redesenho de fronteiras invisíveis na diplomacia regional. Notavelmente ausentes dos corredores do projeto permanecem os representantes palestinos, cuja ausência compromete a legitimidade local e põe em xeque a eficácia de qualquer arquitetura imposta externamente.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro internacional: a proposta de Trump busca instituir uma nova plataforma multilateral com forte eixo americano, financiamentos vultosos e uma mistura heterodoxa de atores estatais. A reação dos governos europeus, o silêncio oficial de Moscou e a exclusão dos palestinos são peças que, bem alinhadas, podem estabilizar um arranjo; mal alinhadas, tornam-no frágil e contestável.
Como observador de Realpolitik, constato que o projeto espelha uma ambição de remodelar lideranças e espaços de decisão — uma arquitetura cujo sucesso dependerá tanto da arte da diplomacia quanto da resistência das constituições nacionais e do equilíbrio de poder regional.






















