Por Marco Severini — No tabuleiro diplomático desenhado em Davos, um movimento prudente e calculado parece ter apaziguado, ao menos provisoriamente, as tensões em torno da Groenlândia. Segundo reportagens do New York Times e da Axios, fruto de entrevistas com altos funcionários sob anonimato, um quadro de entendimento entre os Estados Unidos, a Dinamarca e as autoridades groenlandesas foi esboçado, sem implicar — nas linhas mestras divulgadas — uma cessão total de soberania.
O episódio começou com o encontro em Davos entre o presidente Trump e o primeiro‑ministro dos Países Baixos, Mark Rutte, que, de acordo com as fontes, teria sido peça-chave na concepção do que foi comparado às bases britânicas em Chipre. A iniciativa, que o próprio Rutte “estaria trabalhando há algum tempo”, propõe a criação de pequenas parcelas territoriais destinadas à instalação de bases americanas — áreas sob controle operacional dos EUA, mas sem o repasse global da soberania groenlandesa à potência externa.
Fontes próximas à reunião da Otan relataram que dois participantes resumiram o plano como um “modelo Cipro”: enclaves com estatuto especial que permitem presença militar significativa sem transferir o título de Estado. A comparação é útil como analogia cartográfica: não se trata de redesenhar a fronteira oficial do país, mas de traçar ilhas de competência prática, como se fossem fortalezas assentadas em pontos estratégicos do mapa.
A proposta, conforme descrita pela imprensa norte‑americana, incluiria a atualização do antigo Acordo de Defesa da Groenlândia de 1951 entre os EUA e a Dinamarca. Esse arcabouço permitiria modernizar disposições sobre construção de bases, estabelecer “áreas de defesa” mobilizáveis pela Otan, e abrir espaço para o posicionamento de sistemas antimisseis — mencionando explicitamente o potencial desdobramento do sistema Golden Dome na região.
Além do instrumental militar, o esboço contém cláusulas relativas à exploração e aos direitos sobre minerais e matérias‑primas, bem como medidas para reforçar a segurança no Ártico frente a tentativas de influência por parte de Rússia e China. A nota oficial da Otan sublinha que “as negociações entre Dinamarca, Groenlândia e Estados Unidos prosseguirão com o objetivo de garantir que Rússia e China não obtenham vantagem econômica ou militar na região”.
É importante notar, com a calma analítica de quem joga para o médio prazo, que o que está em causa é menos uma anexação formal do que um reequilíbrio de posições estratégicas. A Dinamarca — segundo as fontes — estaria disposta a aceitar um compromisso desse tipo, contanto que a integridade soberana da ilha não seja revogada. Para além da técnica jurídica, operam aqui alicerces políticos delicados: a Groenlândia, com autonomia interna crescente, é também palco de uma tectônica de poder que envolve atores locais, europeus e transatlânticos.
Em termos simbólicos, o avanço proposto equivale a deslocar peças num tabuleiro maior sem quebrar a arquitetura do tabuleiro em si. Se ratificado, o acordo será um exemplo contemporâneo de diplomacia de precisão: um mosaico de privilégios e responsabilidades afinado para contrabalançar influências externas sem provocar um choque direto entre potências.
Resta aguardar a continuidade das negociações formais, cujo desfecho dependerá da convergência entre interesses estratégicos, percepções de segurança e a vontade política de preservar, simultaneamente, soberania e cooperação transatlântica.






















