Bruxelas – No ritmo tenso das negociações comerciais entre União Europeia e Índia, surge um elemento capaz de redesenhar as linhas do acordo: o açúcar. O tema, aparentemente setorial, tem na verdade impacto estratégico sobre comunidades inteiras e sobre a estabilidade interna do bloco, sobretudo nas regiões ultraperiféricas da UE, como Guadalupe, Reunião e Martinica, onde a economia continua profundamente ligada à produção de cana-de-açúcar.
Eurodeputados franceses da oposição (RN/PfE) levaram ao plenário uma interpelação que expõe os receios dos produtores locais: um eventual acordo de livre comércio com a Índia, potência produtora, poderá introduzir concorrência que fragilize um setor já sensível. A questão não é menor; trata-se de um movimento que pode alterar a tectônica de poder agrícola dentro da União, exigindo contramarchas políticas precisas.
O comissário europeu para a Agricultura, Christophe Hansen, respondeu com cautela — o que, no tabuleiro diplomático, é muitas vezes sinal de manobra ainda em curso. Hansen recordou que a sensibilidade do setor sucroalcooleiro da UE foi reconhecida há anos: em 2019, o Grupo de Alto Nível sobre o açúcar recomendou que o produto seja tratado como sensível nas negociações com grandes países produtores, para preservar a competitividade e a resiliência da indústria europeia.
Hansen também reconheceu que os próprios produtores expressaram “sérias preocupações” quanto à eventual inclusão do açúcar nas conversações com a Índia. Em resposta, informou que a Comissão Europeia tem considerado essa sensibilidade e pretende atuar de acordo com o compromisso de proteger áreas vulneráveis em seus acordos de livre comércio. No entanto, o comissário não confirmou explicitamente uma exclusão total do produto do pacote negocial, deixando em aberto alternativas como um regime de quotas ou cláusulas especiais de salvaguarda.
Essa indeterminação — nem exclui, nem integra de forma plena — abre um leque de cenários: do desenho de salvaguardas e quotas a exceções territoriais, ou mesmo a adoção de mecanismos de compensação para as regiões ultraperiféricas. Para os atores locais, a urgência é clara; para os negociadores, trata-se de equilibrar interesses internos com a necessidade de responder ao redirecionamento geopolítico do comércio global, em parte impulsionado pelos recentes movimentos imprevisíveis dos Estados Unidos.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um movimento que lembra um lance crítico num jogo de xadrez: reconhecer a peça sensível e decidir se a protege com um elegante sacrifício posicional ou a mantém no tabuleiro à custa de riscos sulcados no tempo. A escolha da Comissão Europeia terá repercussões econômicas e políticas, e testará a sua habilidade em manter os alicerces frágeis da diplomacia comercial interna sem comprometer o objetivo maior de estreitar laços com a Índia.
Até que o texto final seja divulgado, produtores, parlamentares e executivos acompanharão cada passo do processo. A aparente moderação das declarações públicas encobre um esforço técnico intenso para conciliar interesses territoriais e estratégicos — um exemplo claro do redesenho de fronteiras invisíveis que um acordo comercial pode impor.






















