Ciao, viajante. Quando um acidente ferroviário cruza as manchetes, a pergunta volta como um eco: se nos automóveis e nos aviões usamos cintos de segurança, por que nos comboios viajamos sem eles? A resposta é surpreendente e um pouco contraintuitiva: em muitas situações, usar cintos de segurança em um trem poderia ser mais perigoso.
Testes conduzidos pelo British Rail Safety and Standards Board, com manequins e simulações por computador, compararam sistemas de cintos com duas fixações (tipo aeronave) e com três fixações (tipo automóvel). O veredito foi claro: os cintos aumentaram a gravidade dos ferimentos em cenários de colisão ferroviária. Por isso, os regulamentos internacionais e as práticas técnicas desaconselham a sua utilização generalizada nos comboios — um posicionamento confirmado pela Renfe quando questionada nas redes sociais.
A razão está na própria física do acidente e na arquitetura do veículo. Ao contrário de um carro, que pode parar abruptamente, ou de um avião, que pode sofrer uma queda repentina, a dinâmica de um impacto ferroviário é diferente. As carruagens são concebidas com um sistema de proteção passiva: os assentos e os elementos interiores são pensados para absorver e distribuir a energia do impacto. A separação entre bancos, mesas e estruturas, e a forma como estes se deformam, transforma o conjunto em uma espécie de colchão estrutural que protege os ocupantes.
Os ensaios demonstraram que bancos projetados para resistir ao impacto, sem o uso de cintos, acabam por proteger melhor os passageiros do que a mesma cena com passageiros enganchados por cintos de segurança. Em determinados acidentes, ficar imobilizado por um cinto pode impedir movimentos que, paradoxalmente, reduziriam a gravidade das lesões.
Na Espanha, o sistema de segurança ferroviária é multifacetado. O Administrador de Infraestructuras Ferroviarias (Adif) e outras entidades mantêm normas, inspeções e mecanismos para reduzir riscos: desde dispositivos que verificam a vigilância do maquinista até protocolos para intervenção em incidentes. Sobre o episódio que trouxe o tema de volta ao debate público, a secção de Adamuz foi inspecionada pela Adif em 7 de janeiro de 2026, sem detecção de anomalias aparentes relacionadas com o acidente. Ainda assim, o Ministério dos Transportes indicou que outros comboios que passaram por Adamuz apresentavam marcas nos eixos semelhantes às registadas no trem Iryo envolvido.
O presidente da Renfe, Álvaro Fernández Heredia, afastou, até agora, as hipóteses de erro humano e de excesso de velocidade: ambos os comboios circulavam abaixo do limite permitido. A investigação permanece em curso e o ministro Óscar Puente pediu cautela — “não especulem até à conclusão das análises técnicas”.
Entre as emoções e a razão, vale lembrar que, apesar das tragédias que nos comovem, o trem segue sendo um dos meios de transporte mais seguros, apenas atrás da aviação e dos autocarros em algumas estatísticas. Pesquisadores, como Ian Savage, já analisaram dados que reforçam essa ideia: o risco por passageiro-quilómetro é baixo quando comparado com muitas alternativas.
Então, da próxima vez que viajar e se pegar a imaginar um cinto como em um carro: respire a luz dourada da janela, saboreie a história nas linhas da paisagem e deixe-se envolver pelo sistema que foi pensado para proteger sem prender. Andiamo — a segurança ferroviária tem outra poesia.
Erica Santini — Espresso Italia: hospitalidade sofisticada, um olhar ítalo-brasileiro sobre viagens, cultura e os segredos do Bel Paese e além.





















