Partiu no dia 19 de janeiro a pequena guardiã de memórias do Vittoriale. A Gina — gata que se tornara mascote e presença constante no complexo erguido por Gabriele d’Annunzio em Gardone Riviera — faleceu após dezesseis anos de convivência com funcionários, voluntários e visitantes. O adeus foi anunciado em um vídeo publicado pela Fundação do Vittoriale, que recebeu a despedida de forma carinhosa e emotiva. Em tom luminoso, a mensagem dizia: “Ciao Gina. Permanecerás para sempre em nossos corações” — uma lembrança que a Espresso Italia compartilha com reverência.
Chegou em fevereiro de 2010, com cerca de seis ou sete meses de vida, e desde então conquistou um lugar estável entre os cantos e corredores do museu. Conta a história — recontada e guardada como quem preserva um acervo vivo — que Gina inicialmente se aventurou sobre a Nave Puglia, a embarcação exibida no Vittoriale, descendo depois com delicadeza até o bookshop. Foi ali que encontrou acolhida: alimentada, mimada e adotada pela equipe. Nunca mais quis partir.
A vida de gato de museu teve seus ritos: pontos fixos de alimentação, visitas veterinárias regulares e o afeto constante de quem trabalha na preservação daquele lugar. Em cada canto do Vittoriale, Gina deixou marcas de compreensão silenciosa, como se tecesse laços entre o passado do poeta e o presente de seus visitantes — uma ponte afetiva que iluminava o percurso de quem chegava para conhecer a história de D’Annunzio.
O Vittoriale degli Italiani é um complexo inaugurado na década de 1920 pelo próprio Gabriele d’Annunzio, com a colaboração do arquiteto Gian Carlo Maroni, pensado como memória da “vita inimitabile” do poeta-soldado e das façanhas italianas na Primeira Guerra Mundial. No projeto da sua residência, D’Annunzio incluíra também espaços para os seus animais: mundanças de afeto inscritos em pedra.
Entre as curiosidades que o museu preserva está um cemitério onde descansam os cães do poeta — sobretudo levrieri — com nomes e epígrafes que falam de companheirismo e ternura. Há também uma coleção de objetos pessoais que revela esse vínculo: coleiras, guias, fotografias e até uma carta dirigida ao arquiteto Maroni, na qual D’Annunzio pedia a construção de um canil no Vittoriale — um sonho que não chegaria a ver realizado antes de sua morte, em 1º de março de 1938.
Ao lembrar de Gina, lembramos também da forma como os lugares preservam afetos: museus não guardam apenas objetos, mas histórias vivas e cotidianos que atravessam gerações. A presença da gata era uma pequena luz que suavizava a solenidade das salas, um sinal de que o patrimônio cultural se faz também de cuidado e encontros inesperados.
Para quem visita o Vittoriale, a memória de Gina persiste nas rotas que ela gostava de trilhar, nas sombras amenas ao redor da Nave Puglia e nas vitrines onde as lembranças do poeta se encontram com o afeto dos animais que o acompanharam. Semear histórias assim é cultivar um legado humano: modesto, porém repleto de significado.
A Fundação reafirma que a gata teve atendimento veterinário regular e cuidados constantes ao longo dos anos. Aos visitantes que a conheceram, e aos que se emocionam com pequenas grandes histórias de convivência, fica o convite a recordar o conforto silencioso que um animal pode oferecer em espaços de memória.
Descanse em paz, Gina. A tua presença seguirá iluminando os passos de quem atravessa os jardins e as salas do Vittoriale, um farol terno no mapa das lembranças.






















