Por Aurora Bellini — Em mais um capítulo doloroso da luta pela conservação, um íbis eremita, espécie em risco de extinção e alvo de programas internacionais de reintrodução, foi encontrado gravemente ferido na província de Penne, no território de Pescara, Região de Abruzzo. O animal apresentava uma rosa de chumbinho de arma de caça e, apesar da gravidade dos ferimentos, foi localizado ainda com vida por um morador local.
O cidadão que o resgatou conduziu o pássaro à Reserva Natural Regional Lago di Penne, onde recebeu os primeiros cuidados. Devido à extensão dos danos, o íbis eremita foi transferido a uma clínica veterinária em Montesilvano, onde passou por intervenção cirúrgica. Até o fechamento desta reportagem não havia confirmação pública sobre o êxito total da operação nem sobre a possibilidade de o animal voltar a voar.
Além da angústia quanto ao prognóstico individual, cresce a apreensão da comunidade de conservação por conta de um segundo indivíduo que vinha sendo observado na mesma vallata entre Penne e o rio Pescara. Observadores haviam notado que esse pássaro ostentava um anel de identificação e um sinalizador GPS — este último deixou de emitir sinais nas últimas leituras. A ausência do sinal levanta temores sobre seu paradeiro e segurança.
É muito provável que se trate de exemplar ligado ao projeto Waldrappteam, iniciativa internacional na qual participam cientistas e instituições italianas com o objetivo de restaurar populações do íbis eremita. Esses indivíduos são, muitas vezes, nascidos em cativeiro ou semi-cativeiro e ensaiados na arte da migração por «mães-salvo» humanas: equipes acompanham os juvenis nas primeiras rotas migratórias a bordo de ultraleves, reforçando o aprendizado entre Áustria e a lagoa de Orbetello, tradicional área de invernada.
A aparição de aves tão icônicas em latitudes mais ao sul foi celebrada como um pequeno renascimento — um sinal de independência e de exploração da paisagem por parte das aves. Agora, esse brilho foi ofuscado pela violência humana: o tiro contra um exemplar reintroduzido não é apenas um crime contra um indivíduo, é um golpe na trama coletiva que tece a recuperação de uma espécie.
As ameaças que empurraram o íbis eremita ao limiar da extinção são múltiplas — do braconeiro ao encolhimento de habitat e à pressão antropogênica — e cada retrocesso exige uma resposta firme das instituições, dos conservacionistas e da sociedade. Em reportagens anteriores, a Espresso Italia documentou outros episódios de aves abatidas, e a repercussão tem levado organizações e comunidades locais a reforçar pedidos por investigação e vigilância.
Enquanto aguardamos informações concretas sobre a recuperação do animal ferido e o destino do segundo indivíduo, cabe a nós iluminar caminhos práticos: denunciar a caça ilegal, apoiar programas científicos de reintrodução e fortalecer redes locais de monitoramento. É assim, semear soluções e cultivar valores, que podemos transformar este luto em impulso para um futuro onde o voo destes pássaros volte a desenhar horizontes límpidos.
Atualização: notificações às autoridades locais foram registradas; as equipes veterinárias e de conservação acompanham o caso.






















