Marco Severini – Em um movimento que redesenha as linhas de influência no continente, os Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump parecem ter substituído a tradicional Dottrina Monroe (1823) por uma versão personalizada que a imprensa já denomina “Donroe”. Trata‑se de uma alteração de paradigma: do princípio clássico de contenção de potências europeias à reivindicação explícita de domínio hemisférico, invocada em nome da segurança dos EUA.
Nas últimas semanas, após operações que culminaram em intervenção militar e mudança de regime em Caracas — e entre ameaças narradas sobre a Groenlândia — a administração americana acelerou uma sequência de decisões com ampla implicação geopolítica. Segundo declarações presidenciais, os próximos alvos potenciais incluem: Colômbia, México, Cuba, o canal do Panamá, Argentina, Brasil e ainda Israel, concebido como um avamposto estratégico no Oriente Médio.
Essas intenções foram anunciadas por Donald Trump a bordo do Air Force One, em conversas com jornalistas, na esteira de ações navais e do confisco de petroleiros reportados no Atlântico Norte e no Caribe. A lógica exposta pelo presidente é direta: onde houver risco real ou percebido à segurança dos EUA, Washington reservam‑se o direito de intervir para “proteger o hemisfério ocidental” — uma formulação que reinterpreta a linguagem monroista em chave contemporânea.
Em Havana, a resposta não tardou. O governo cubano aprovou um plano de transição para um declarado “estado de guerra”, alegando caráter defensivo para aumentar a prontidão militar diante de ameaças externas. Observadores regionais veem esse movimento como o deslocamento de uma tectônica de poder já instável, com riscos reais de escalada.
Historicamente, a Dottrina Monroe, formulada em 1823 por James Monroe com o slogan “a América para os americanos”, tinha como objetivo impedir nova colonização europeia e justificar a intervenção americana contra influências externas. A atualização agora proposta — a Donroe — carrega, porém, uma característica adicional: personalização e ampliação do escopo, incluindo incursões ideológicas e operacionais mais diretas nas rotas estratégicas, centros energéticos e estados fronteiriços.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um movimento de tabuleiro: movimentos rápidos e de alto risco, destinados a reconfigurar alianças e conter atores considerados hostis ou instáveis. A inclusão do Canal do Panamá na lista é emblemática — trata‑se de uma artéria logística por onde passa importante porcentagem do tráfego marítimo mundial —, enquanto a referência a Israel confirma o desejo de manter um eixo de projeção no Mediterrâneo oriental e no Levante.
Para os analistas que acompanham a realpolitik hemisférica, a pergunta central é se essa nova doutrina permanecerá como doutrina de Estado — com instituições e rotinas permanentes — ou se trata apenas de um amálgama tático de uma administração com apetite por demonstrações de poder. A resposta determinará não apenas o futuro imediato da América Latina, mas também o desenho das redes de influência entre potências globais.
Como em uma partida de xadrez, cada jogada americana provoca respostas em cadeia: estados reforçam defesas, procuram novas alianças, e atores externos reavaliam investimentos e presença regional. O alicerce da diplomacia regional, já frágil, exige agora reavaliação e prudência estratégica. A estabilidade do hemisfério depende, em grande medida, da capacidade dos Estados de traduzir retórica em estratégias de contenção e diálogo, evitando que o redibujar de fronteiras invisíveis se torne fonte de conflito aberto.






















