Davos reaparece no calendário internacional como um dos palcos preferenciais onde se desenham, em silêncio e com pompa, as linhas mestras da tectônica de poder contemporânea. O World Economic Forum não é apenas uma reunião de líderes e celebridades políticas; é um espaço institucionalizado em que a elite do poder coordena estratégias de classe, operacionaliza interesses e procura legitimar políticas que, sob verniz técnico e benevolência retórica, consolidam privilégios.
Entre os protagonistas apontados pela cena pública estão figuras como Donald Trump — cuja presença continua a provocar reações em vários quadrantes — e Volodymyr Zelensky, a figura ucraniana que, na ótica de muitos analistas, simboliza a interseção entre mídia, diplomacia e interesses estratégicos. Ainda que a teatralidade das individualidades concentre as atenções, o que verdadeiramente se decide nos salões de Davos são trajetórias e mecanismos: desde a prossecução do livre mercado até a gestão da globalização como sistema normativo e econômico.
É necessário observar Davos com a calma e a precisão de um cartógrafo: traçados de influência que parecem discretos no mapa público, mas redesenham fronteiras invisíveis — fluxos financeiros, alianças tecnológicas, normas regulatórias. Nesse tabuleiro, o papel dos chamados intelectuais convida atenção crítica. Sua função institucionalizada, com frequência, consiste em administrar o consentimento: traduzir o interesse da elite como interesse geral e explicar, com erudição e aparente desinteresse moral, por que as dores sociais são inevitáveis ou até salutares.
Como analista, prefiro a imagem do xadrez ilustrando esse movimento: não se trata apenas de jogadas ostensivas, mas de pequenas trocas posicionalistas que, acumuladas, transformam a configuração do tabuleiro. Há, por conseguinte, um componente estratégico e outro simbólico: a legitimação performativa da ordem existente. Essa dupla dimensão é o que torna o encontro tão relevante para quem estuda a estabilidade — ou a instabilidade — das estruturas de poder.
De maneira realista, a discussão sobre Davos não se limita a condenações ou elogios simplistas. Trata-se de reconhecer que, em termos práticos, decisões tomadas nesses fóruns repercutem em mercados, políticas públicas e soberanias nacionais. O desafio para as sociedades é perceber esses mecanismos e reconstruir alicerces mais equitativos de deliberação pública — evitando que o consenso seja apenas uma cortina de verniz sobre a manutenção de privilégios.
Ao invés de ceder ao espetáculo, urge retomar a cartografia crítica do poder: decifrar quem ganha com cada proposta, quais interesses se ocultam sob linguagem neutra e que alternativas institucionais — internas e transnacionais — podem redesenhar um espaço de governança genuinamente plural. Em suma, o retorno de Davos é um lembrete de que as grandes decisões globais continuam a ser tomadas em arenas restritas; a pergunta é como, a partir de sociedades informadas e organizadas, deslocar a iniciativa para um quadro mais transparente e democrático.
Marco Severini
Analista sênior de geopolítica e estratégia internacional — Espresso Italia






















