Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento que ressoa como um lance calculado num tabuleiro de xadrez da geopolítica, autoridades dos Estados Unidos relataram ao Wall Street Journal a intenção de pressionar por um rovesciamento do governo de Cuba até o fim de 2026. A estratégia, segundo essas fontes, aproveitaria o quadro de fragilidade interna — colapso econômico, longos apagões, escassez crônica de medicamentos e uma pobreza que tende a se aprofundar — para tornar a transição política mais “linear” e socialmente aceitável.
O diagnóstico é de realpolitik: não se trata apenas de retórica, mas de desenhar condições que facilitem um cambio de regime sem intervenção militar direta óbvia. Nesse cenário, o governo do então presidente Donald Trump vislumbraria a coadjuvação de interlocutores locais — políticos, setores econômicos e forças sociais — capazes de suavizar a passagem do poder.
Paralelamente às sinalizações estratégicas, chegam às manchetes ameaças concretas: a administração americana condicionou o fluxo de petróleo e recursos financeiros provenientes da Venezuela a acordos que serviriam ao seu projeto regional. La Havana reagiu com severidade, rotulando as pressões como atos de um “hegemon criminal”. A tensão verbal tem tradução prática: o Consejo de Defensa Nacional cubano convocou a população à “mobilização geral” e orientou o reforço das estruturas militares diante do risco de uma “agressão externa”.
Do lado norte-americano, vozes políticas como a do senador republicano Rick Scott indicaram publicamente que, após operações na Venezuela, poderiam vir a mirar também Cuba, Nicarágua e Colômbia para “restaurar a democracia no hemisfério”. São declarações que, no xadrez estratégico, equivalem a mover peças com intenção de criar múltiplos pontos de pressão simultâneos.
Importa sublinhar que, ao contrário de um ataque frontal, a hipótese delineada por fontes americanas baseia-se em alavancas econômicas e políticas: sufocar vias de abastecimento, restringir fluxos financeiros e explorar rupturas sociais para provocar mudanças internas de regime. Esse padrão já se insinua no contexto venezuelano pós-crise recente, cujos efeitos reverberam na ilha.
Do ponto de vista da estabilidade regional, o risco é um redesenho de fronteiras invisíveis — linhas de influência que se movem conforme as pressões econômicas e diplomáticas — com efeitos duradouros sobre alianças tradicionais e sobre a segurança humanitária das populações atingidas pelos cortes de energia, medicamentos e bens essenciais.
Como analista, vejo aqui um conjunto de alicerces frágeis: o governo cubano enfrenta problemas reais de governança econômica; a administração americana dispõe de instrumentos de pressão e aliados regionais dispostos a aumentar o cerco; enquanto isso, a retórica beligerante e a mobilização militar preventiva elevam o risco de incidentes involuntários. Em linguagem de cartografia estratégica, o mapa do Caribe está sujeito a uma nova tectônica de poder — onde um movimento decisivo pode reconfigurar domínios de influência por anos.
Resta acompanhar com rigor as evidências e os desdobramentos, pois, como em qualquer jogada de alto risco, as consequências humanitárias e políticas podem exceder as intenções iniciais. A estabilidade do hemisfério depende de como essas pressões serão administradas — se por vias diplomáticas e mitigação de crises, ou por escaladas que ampliem sofrimento e instabilidade.





















